Tão débil quanto mito que sugere que os países nórdicos sejam
socialistas (ou pelo menos Estado do bem-estar social) é a falácia da elevada
qualidade de vida em Cuba. Como bem teorizaram Mises e Hayek é impossível para
uma economia planificada produzir qualquer bom resultado socioeconômico devido
ao “problema de calculo econômico” e “problema de dispersão do conhecimento”. O
mito de que Cuba tenha uma elevada qualidade de vida, parte do ranking de
Índice de Desenvolvimento Humano, divulgado anualmente pela ONU. Com isto,
socialistas no mundo inteiro, deixam de ignorar o absoluto fracasso da URSS,
China e Coreia do Norte, dentre outras nações para focar seus argumentos em um
suposto sucesso cubano. O que os militantes socialistas se esqueceram de
relatar (é mais provável que desconheçam) é o fato de que Cuba não permite
vistorias internacionais a fins de verificar sua qualidade de vida. Todos os
índices publicados pela ONU são enviados pelo governo. É fato histórico que
todas as ditaduras socialistas, jamais permitiram que sua pátrias fossem
assistidas internacionalmente.
O motivo para Cuba proibir vistorias internacionais profundas
é claro, historicamente notório e de fácil entendimento e herança de antigos
regimes socialistas. A URSS, por exemplo, enviava dados à ONU que a colocava
como 26º em IDH. Todavia em 1990, com a dissolução do bloco e a introdução da
análise internacional, seu epicentro: a Rússia despencou mais de cinquenta
posições. As demais nações que formavam a URSS apareceram em posições muito piores
que o centro do governo comunista. Logo, confiar nos dados cedidos pela
economia planificada de Cuba, seria como confiar nos dados cedidos pela URSS.
Doravante, a ideia de um IDH cubano elevado é de fácil refutação. O IDH combina
três fatores: o primeiro é o Índice de Educação que calcula o numero de pessoas
alfabetizadas e a taxa de escolarização, o segundo é a Longevidade que analisa
a expectativa de vida, mortalidade infantil e a qualidade da saúde, o terceiro
fator é a Renda a partir do PIB per capita e do PPP (pode de paridade e
compra). Tendo em base a metodologia de medição usada pelo IDH, podemos
garantir que o IDH de Cuba é falso.
É de conhecimento internacional que o PIB cubano não é
calculado nos padrões internacionais. A ditadura castrista soma valores
referentes a todo setor público às precárias atividades econômicas da ilha,
,produzindo uma elevação artificial. Segundo a ditadura, a renda per capita
cubana é de UU$ 10.200 (2015) enquanto a mais elevada média salarial anual
chega a míseros UU$ 300 (médicos mais bem pagos) em uma desproporção
assombrosa. Também cabe citar que o PPP é um método que não pode ser usado em
uma economia fechada com uma taxa de câmbio arbitrada pelo governo. Outro fator
é a saúde: acalmada pelos “baixos índices” de mortalidade infantil. De acordo
com os números cedidos de Cuba à ONU, a ilha está na 44º colocação no ranking
mortalidade infantil. Entretanto, segundo a ONU, em 1958, (um ano antes à
revolução) Cuba estava na 13º colocação. Logo encontramos um nítido retrocesso
neste quesito, embora Cuba divulgue valores muito superiores a realidade,
através de mentiras estatísticas impostas pelo regime.
Em 2011 o Dr. Juan Felipe Garcia da Florida entrevistou
diversos médicos refugiados que alegaram que pediatras falsificam registros a
pedido do regime. Eles não somente encobrem a morte precoce de crianças, como
fazem dezenas de abortos diariamente. Mesmo sem sinais de anomalia na gravidez
o aborto é uma prática usada para reduzir as taxas de mortalidade infantil,
quando a realidade socioeconômica as levaria inevitavelmente ao óbito. A
realidade da medicina cubana é oposta as imagens filmagens de Michael Moore.
Ele apenas filmara os hospitais pagos em dólar para estrangeiros e para as
elites políticas. Vários cinegrafistas amadores gravaram hospitais como os que
foram exibidos pela Fox News e que revelam a medonha realidade cubana: postos
de saúde fechados ou com mínimos medicamentos, hospitais sem infraestrutura,
imundos, repletos de sangue, com aparelhos ultrapassados há década, além de
pacientes insatisfeitos e médicos frustrados. A medicina cubana é tão precária
que em 2015 o governo de Cuba informou sobre um novo surto de cólera em seu
território com 163 casos, incluindo 12 turistas.
Há um outro fato inegável sobre a ilha; há mais de 50 anos
Cuba sofre de um severo racionamento, tal como ocorre em qualquer nação
socialista. Devido ao problema de cálculo econômico, Cuba sofrera imensa
escassez logo no início de seu revolução socialista. Em 1963, o governo criou
uma caderneta de racionamento usada para que a população possa adquirir uma
pequena quantidade de produtos nas distribuidoras estatais. Nestas
distribuidoras quase tudo é de má qualidade. Em exemplo não há partes nobres de
carnes a disposição da população. O leite é extremamente difícil de se
adquirido de tal forma que não dura poucos dias. Toda a população passa horas
enfrentando longas filas para conseguir uma unidade diária de pão. E esta
situação piora gradativamente de modo que o número produtos disponíveis na lista
estatal tem escolhido ao redor dos anos. A única forma de conseguir tais
produtos é através do mercado negro por um preço elevado devido a
marginalização do comércio privado.
Outra grande falácia a respeito da ilha é sobre seu sistema
educacional. As escolas cubanas estão séculos de distancia das escolas na
Coreia do Sul, com um computador por aluno, bibliotecas enormes, infraestrutura
completa, professores altamente capacitados e até mesmo robôs em sala de aula.
Um exemplo claro é que 75% dos estudantes que cursaram graduação de medicina em
Cuba (seu suposto melhor curso) não foram capazes de revalidar seu diploma na
UFMG em 2015. O mesmo ocorre em todo mundo. Cubanos não participam de análises
internacionais para testar o conhecimento de seus alunos ou professores.
Em filmagens amadoras são deflagradas
mentiras a respeito das nações capitalistas e ocidentais enaltecendo Cuba, tal
como se fosse a nação mais prospera do globo. Cuba também é notória na censura e reconhecida mundialmente
por violar os direitos humanos através de práticas como tortura, prisões
arbitrárias, julgamentos injustos, execução extrajudicial, pela perseguição e
exclusão de negros, mulheres e homossexuais.
Basta um pequeno passeio pela ilha para notarmos o nível da
obsolescência cubana. Prédios em ruínas, sem pintura, ruas sujas, banheiros
imundos, lojas com absoluta escassez, filas enormes em toda a ilha, carros que
são peças de museus, ruas lotadas de prostitutas, nenhum acesso à tecnologia em
um clima de nostalgia que lembra os anos 50. Leigos em história e economia
poderiam alegar que todo fracasso cubano deve-se ao embargo norte-americano, o
que obviamente é uma mentira. Em 2015 Cuba negociou com 96 países incluindo os
EUA. Suas importações cresceram acentuadamente nas ultimas décadas. O problema
de Cuba esta em sua quase nula produtividade, pois não há espaço para
empreendedores. Mesmo que Raul Castro tenha liberado terras a agricultores
privados e o direito de comercializar a determinados indivíduos faltam
equipamento para trabalhar a terra e bens para serem comercializados uma vez
que tudo deve passar antes pelo governo. A única solução para Cuba é dar fim a
ditadura, privatizar setores, desregulamentar a economia como fizera a Rússia,
China e Vietnã. No socialismo encontrarão somente a miséria e servidão!
O tema da semana foi o PL 4330/04, aquele que regulamenta a terceirização. Não sou da área de economia do trabalho, mas por estudar crescimento econômico acabo acompanhando a literatura de economia do trabalho. A bem da verdade devo confessar que não foi na literatura de economia do trabalho que me apoiei para afirmar que o PL 4330/04 é bom para a economia brasileira, minha afirmação tem por base a literatura de crescimento econômico. Não são poucos os pesquisadores que dedicam tempo a estudar crescimento econômico do Brasil que concordam que o excesso de burocracia e restrições legais são um dos maiores entraves para que o Brasil volte a crescer. Ao oferecer novas alternativas de arranjos trabalhistas o PL 4330/04 ajuda a reduzir restrições a acordos voluntários em um mercado crítico como o mercado de trabalho.
A princípio não levei em conta questões jurídicas ou se a terceirização era instrumento eficiente de gestão o que tem implicações no quão útil a lei será. Não levei em conta questões jurídicas porque é quase impossível para um leigo (ou mesmo para um advogado que não milite em causas trabalhistas) avaliar o impacto jurídico de medidas que afetam as relações de trabalho no Brasil. É um emaranhado tão grande de leis e exceções, de jurisprudências de brechas legais e coisas do tipo que entendi por bem que seria melhor não entrar na questão, afinal estava discutindo o assunto na internet e não escrevendo um artigo científico ou mesmo um relatório técnico sobre impactos da terceirização. Não entrei em questões de gestão por motivos diferentes (não sou administrador, mas não teria dificuldades em conversar sobre o tema com alguns dos vários administradores que lecionam no departamento de administração da UnB), se a terceirização não for boa para a firma entendo que a firma não será afetada pelo PL 4330/04, afinal o PL não obriga ninguém a terceirizar, apenas oferece a opção.
Como assunto cresceu mais do que imaginei acabei por procurar opiniões de quem entende de direito e de quem entende de administração. Encontrei várias, sugiro ao leitor uma entrevista com o advogado Sérgio Schwartsman (link aqui) e um post no FB do administrador de empresas Stephen Kanitz com a discussão que segue o post (link aqui). Caso o leitor queira outras opiniões é só buscar na internet, existem várias. Mas não é para defender a terceirização que estou fazendo este post, nem mesmo é para criticar. Faço o post para chamar atenção da pobreza do caso contra a terceirização.
O número mágico que está na internet é que terceirizados ganham 25% menos do que trabalhadores que são contratados diretamente pela empresa. Tal número pode ser encontrado em várias reportagens na imprensa, em posts de blogs e no FB e em vídeos que circulam pela internet. Por exemplo, o site UOL afirma “Salário médio dos terceirizados em 2013: R$ 1.776,78 (25% menor que os R$ 2.361,15 dos contratados diretamente)” (link aqui). A Carta Capital diz: “O salário de trabalhadores terceirizados é 24% menor do que o dos empregados formais, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).” (link aqui). O blog Viomundo afirma: “Segundo o documento, em dezembro de 2013, os trabalhadores terceirizados recebiam 24,7% a menos do que os contratados diretos...” (link aqui). O Estadão cita um número diferente (talvez por algum ajuste nas horas) mas aponta a CUT como fonte na chamada que anuncia: “Terceirizados ganham 27,1% a menos que contratados diretamente, diz CUT.” (link aqui).
Provocado em uma conversa no FB decidi procurar o estudo da CUT e descobrir de onde veio o número. O estudo se chama “Terceirização de Desenvolvimento: uma conta que não fecha” (link aqui). A tabela com o número que está sendo usado para criticar o PL 4330/04 é a Tabela 2 que está na página 14 e que eu reproduzo abaixo:
Reparem na fragilidade do número. De início me preocupou que o estudo não controlasse por atividade desempenhada pelo trabalhador. Como atualmente a terceirização só é permitida para atividades meio e é razoável supor que atividades meio ganhem menos que atividades fins independente da forma de contrato eu desconfiei do número. Imagine um hospital, o leitor ficará surpreso em saber que um médico (atividade fim) ganha mais que um servente (atividade meio)? O leitor ficará surpreso em saber que em uma universidade os professores (atividade fim) ganham mais que o porteiro (atividade meio)? Imagino que não. Pois dizer que terceirizados ganham menos que contratados direitos sem controlar por atividade exercida é praticamente o mesmo que dizer que médicos ganham mais que serventes ou professores ganham mais que porteiros. Mas o estudo é ainda mais frágil. Repare que a tabela fala de “Setores Tipicamente terceirizados” e “Setores Tipicamente contratantes”. O que significa isto? Significa que sequer o estudo da CUT está considerando o salário dos trabalhadores terceirizados, o estudo considera o salário dos setores que são classificados como setores tipicamente setorizados.
Grosso modo o que o estudo da CUT está dizendo é que em setores onde terceirização é comum o salário é menor. Quais são estes setores? Procurei um anexo onde estivessem listados quais são os setores tipicamente terceirizados, mas não encontrei. Porém, considerando que a lei apenas permite a terceirização de atividades meio, é bem plausível supor que tais setores são os que atividade meio tem mais peso. Desta forma o que estudo está dizendo é que setores onde atividades meio sujeitas à terceirização são preponderantes pagam salários menores. Tais setores, segundo os números da CUT e do DIEESE, equivalem a 26,8% dos setores (pg.13). Não é quase como dizer que porteiros ganham menos que médicos, é dizer que porteiros ganham menos que médicos.
Se ainda resta alguma dúvida da fragilidade do estudo considere a Tabela 7 (pg.19) nela é dito que 22,7% dos profissionais contratados diretamente tem nível superior, dos terceirizados apenas 8,7% tem nível superior. Não ficaria surpreso se a diferença na educação explicasse boa parte na diferença de salário, o estudo da CUT sugere que não e justifica a alegação dizendo que: “Se observarmos apenas o ensino médio completo, o número de trabalhadores em setores tipicamente terceirizados e tipicamente contratantes é praticamente o mesmo: 46%.”. Ao focar no ensino médio e “esquecer” a diferença no pessoal com superior completo o estudo da CUT parece ignorar que a distribuição de renda no Brasil não é exatamente igualitária e, por isso, é preciso considerar o que acontece na ponta superior. Uma leitura dura do texto da CUT diria que o texto afirma que serventes ganham menos e tem menos capital humano do que médicos porque serventes são terceirizados e médicos não. A mesma leitura diria que a CUT afirma que vigilantes estão mais sujeitos a acidentes de trabalho do que professores porque são terceirizados. Parece absurdo? É absurdo. Mas é este estudo que jornais e blogs estão usando para criticar a terceirização. Peguei pesado com o estudo? Peguei, mas dado o uso que está sendo feito é necessário pegar pesado, ademais, a leitura dura que fiz é mais próxima da realidade que a leitura que estão apresentando do estudo da CUT.
A bem da verdade o texto da CUT trata das atividades no Capítulo 3. Terei sido precipitado ao criticar o estudo? Deveria minha crítica ter sido dirigida apenas a jornalistas e blogueiros que escreveram seus textos antes de chegar ao terceiro capítulo? Não. A análise por atividades não trata da atividade executada pelo empregado como deveria tratar, a análise diz respeito a atividade das firmas. O primeiro exemplo é da Volkswagen. Trata de um caso onde existem terceirizados de primeira linha (moduladores) e terceirizados de segunda linha (vigilantes, alimentação, construção civil, transporte de cargas, etc.). O que diz o estudo da CUT:
“O modelo de salários e benefícios dos cerca de 3.000 trabalhadores da Volkswagen e modulistas garante certa homogeneidade. Todos são enquadrados como metalúrgicos, portanto, representados pelo mesmo Sindicato; têm os mesmos Acordos (inclusive Participação nos Lucros e Resultados, PLR) e Convenção Coletiva; têm uma mesma Comissão de Fábrica eleita por todos e que negocia as mesmas condições para todos; e têm uma única estrutura de cargos e salários negociada com o Sindicato e Comissão de Fábrica - no entanto, evidentemente as funções e salários são diferenciados, particularmente entre trabalhadores na Volkswagen e nas modulistas.
Já os demais 1.500 trabalhadores terceiros são enquadrados em várias outras categorias (vigilantes, alimentação, construção civil, transporte de cargas, etc.), cada um com “seu” sindicato respectivo, seus acordos e convenções coletivas, bastante inferiores aos do Consórcio Modular em que estão inseridos.”
Perceberam? O próprio estudo reconhece que existem terceirizados que possuem melhores condições de trabalho que outros. O que os diferenciam? No texto aprendemos que são diferenciados por sindicatos e por atividades que desempenham. Qual das duas diferenças deve ser mais importante para explicar a diferença de salários? Está em dúvida? Pense comigo, médicos ganham mais que serventes por estarem em sindicatos diferentes ou pelas funções que exercem? Bingo!
A coisa não melhora até aparecer o caso da Usiminas na Tabela 12 (pg.46). Segundo a tabela, que ao contrário das outras não tem fonte, empregados terceirizados em função de limpeza na Usiminas ganham 66% do que ganham os contratados diretamente no mesmo setor. É praticamente o único dado relevante para a crítica ao PL 4330/04 que o estudo apresenta, finalmente é considerada a mesma atividade na mesma empresa. Porém como saber se não é uma característica da Usiminas? A Usiminas era uma empresa estatal que foi privatizada em 1991, é possível que o pessoal de limpeza que ganhe R$ 1.200,00 contra os R$ 800,00 dos terceirizados sejam remanescentes da época em que a empresa era estatal. Mais que possível eu diria que é provável. Por que uma empresa que terceiriza um setor manteria empregados contratados no setor? Talvez por exercerem cargos de chefia (o que por si explica a diferença) ou talvez por contratos que impedem ou tornam muito cara a demissão. Infelizmente os autores do estudo da CUT não deram muitas informações sobre o exemplo e não é possível avaliar o que está acontecendo. A parte final do capítulo dedicado a atividades é dedicada ao setor público. Creio que é o setor onde os argumentos de perdas de direitos e pioras nas condições de trabalho sejam mais adequados, é bem provável que o setor público, inclusive administrações do PT e PCdoB (partidos que votaram contra o PL 4330/04) usem da lei para driblar o regime jurídico que rege os servidores públicos. Não creio que alguém acredite que a ganancia dos empresários, a guerra de classes ou o capitalismo selvagem possam ser culpados pelo uso que gestores públicos farão da nova lei.
Se alguém ainda tem dúvidas da fragilidade do estudo da CUT que olhe as referências bibliográficas. Toda a vasta literatura de economia do trabalho no Brasil e no exterior é solenemente ignorada. Se estou ofendido por a CUT ter ignorado os economistas? Não. Estou incomodado que a CUT não tenha consultado nenhum artigo publicado fora do Brasil e também não tenha consultado estudos publicados em periódicos científicos no Brasil. O projeto ficou onze anos na fila para ser votado, a CUT é uma central sindical grande e rica, que em todo este tempo a CUT não tenha preparado um estudo robusto sobre o tema mostra o pouco interesse da central sindical em fomentar um debate rico a respeito de um tema que afeta diretamente vários trabalhadores. Fica difícil espantar o pensamento que a CUT quer mesmo é fazer barulho para evitar a mudança no jogo de poder e na arrecadação dos sindicatos que o PL 4330/04 trará caso seja transformado em lei.
Nas últimas três décadas, tem-se observado uma subida assinalável dos partidos xenófobos, profundamente conservadores e mesmo de extrema-direita ao longo de grande parte da Europa
Nas últimas três décadas tem-se observado uma subida assinalável dos partidos xenófobos, profundamente conservadores e mesmo de extrema-direita ao longo de grande parte da Europa. Enquanto há trinta anos, a maior parte dos partidos xenófobos não conseguia sequer passar o limiar mínimo dos 5%, que é necessário para entrar no governo, verifica-se que atualmente eles constituem tanto como ~28% do parlamento em países como a Áustria e questionavelmente alcançaram o nível de ~70% na Hungria. [2] Por volta de 1999, os austríacos, que tradicionalmente se arrogam como sendo “as primeiras vítimas” do Terceiro Reich, tinham elegido governador da Caríntia Jörg Haider, proeminente nacionalista acusado de negar o holocausto, e dado ao seu Partido da Liberdade mais do que 26% de votos nas eleições nacionais. Haider ajudou pessoalmente a desmontar os sinais rodoviários que tinham sido colocados para a minoria eslovena local. O partido Aurora Dourada, que tem agora mais do que ~7% da votação nacional na Grécia, desfila frequentemente nas ruas de Atenas com bandeiras com símbolos rúnicos e com botas que facilmente recordam as gerações mais velhas da ocupação nazi de 1941-45. Mais recentemente, o Aurora Dourada distribuiu refeições grátis às populações gregas racialmente “genuínas”. Ao mesmo tempo, membros proeminentes do poderoso partido húngaro Jobbik pediram mesmo ao governo que preparasse listas de judeus que pudessem “ser uma ameaça à segurança nacional húngara.”
Esperando compreender estas surpreendentes mudanças no clima político europeu, este post irá fazer uma breve análise das características da direita xenófoba a partir de 2015, sublinhar a diversidade dos partidos xenófobos e tentar explicar alguns dos padrões encontrados quando a extrema-direita toma o comando assim como as exceções. As percentagens aproximadas que vêm junto aos partidos referem-se à parte aproximada dos parlamentos nacionais de acordo com as mais recentes eleições e são corroboradas pelos respectivos sites governamentais dos países. Torna-se evidente que é muito difícil localizar padrões comuns que possam explicar quando e porquê a extrema-direita ganha força na Europa.
A mudança para a extrema direita que perpassa a Europa é talvez tão surpreendente quanto alarmante, considerando que os espectros da 2ª Guerra Mundial e do totalitarismo ainda estão frescos na memória histórica de praticamente todas as sociedades europeias. Ainda mais surpreendente é o fato de que a direita xenófoba conseguiu alguns dos seus maiores sucessos em países, pasmem, que estão habitualmente associados ao liberalismo e ao multiculturalismo, incluindo a Suíça, a Suécia, e Bélgica e a Holanda. Mesmo na supostamente tolerante Suíça, o poderoso Partido do Povo Suíço (~26%) restringiu a construção de mesquitas e minaretes e fez mesmo campanha com um anúncio que mostrava três ovelhas brancas a expulsar uma ovelha negra para fora do país. Partidos racistas de extrema-direita como oVlaams Belang na Bélgica estavam a ganhar popularidade até que foram proibidos por extremismo em 2004. Nas eleições de 2003, o Vlaams Belang alcançou quase 12% dos assentos na Câmara dos Representantes. Observadores ocidentais esforçaram-se especialmente por compreender como é que a extrema-direita conseguiu tão depressa aparecer na Grécia, o suposto berço da democracia. A crescente popularidade da direita no continente é uma fonte de grande preocupação para os grupos de direitos humanos em Bruxelas, que constantemente encorajam os tribunais nacionais a ilegalizar partidos xenófobos pelo motivo de que violam as proteções internacionais contra o racismo.
Este mapa traça a propagação de partidos xenófobos eleitos na Europa a partir de 2013. Quando se olha para um mapa, o crescimento da extrema-direita é impressionante. O verde refere-se aos países em que um partido xenófobo está no governo e o cinzento significa que não têm nenhum no poder.
Contudo, é crucial compreender que “a extrema direita” não pode ser homogeneizada ou reduzida às imagens típicas do fascismo, do neonazismo, do racismo ou da ditadura que podem surgir nos nossos espíritos quando pensamos na direita na história europeia. Os partidos xenófobos têm juntado crescente apoio de votantes de distintas ideologias políticas sobretudo por causa do crescente descontentamento com o status quo. À medida que as vulnerabilidades da União Europeia se tornam mais evidentes, cada vez mais pessoas reclamam por reformas na economia pan-europeia, na integração, na imigração de fronteiras abertas e no multiculturalismo, princípios que moldaram o desenvolvimento da Europa desde a 2ª Guerra Mundial. Com um desemprego galopante em quase todo o continente, imigração em massa vinda de África, da Ásia e dos Balcãs ( brancos ) na Europa Ocidental e aquilo que muitos sentem ser uma estrutura económica e política falida da União Europeia, votantes de várias origens parece escolherem soluções radicalmente diferentes para as crises em curso na Europa.
Com isto em mente, é importante reconhecer que os movimentos políticos da direita xenófoba são tão diversos como os partidos social-democratas e de extrema-esquerda. Incluem tradicionalistas, pró-europeístas, eurocépticos, democratas, nacionalistas, racialistas, neonazis e mesmo verdes. A maior parte dos partidos xenófobos que exigem imigração restrita são convictamente democráticos. A maior parte advoga uma abordagem tradicional, conservadora ou mesmo moderada de resolver os problemas da Europa no interior do processo democrático. Estes nacionalistas relativamente moderados incluem os Verdadeiros Finlandeses (~19%) da Finlândia, os Democratas da Suécia (~6%), o Partido do Povo Dinamarquês (~12%) e o Partido Popular de Portugal (CDS/PP) (~11%). Mesmo o partido Fidesz da Hungria (~53%) advoga uma plataforma conservadora em vez de uma agenda militante ou autocrática, apesar de criticada pela imprensa ocidental como de extrema-direita ou mesmo de ditadora depois de ter feito emendas à constituição de modo a reforçar o poder executivo. Em alguns países como a Sérvia e a França, os partidos da extrema-direita têm pouca força parlamentar mas mesmo assim orgulham-se de terem figuras públicas muito populares. A Front National de França só tem dois lugares em 577 na Assembleia Nacional, mas Marine Le Pen ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais de 2012 com quase 18% dos votos. O Partido Radical Sérvio extremista e racialista nem sequer está no governo nacional, mas o seu antigo dirigente Tomislav Nikolić foi eleito presidente da Sérvia em 2012. Resumindo, devemos ser cuidadosos ao incluirmos todos os movimentos xenófobos na mesma categoria. Eles variam tanto em relação ao seu apoio popular como em relação à sua ideologia e nem todos eles abraçam agendas antidemocráticas, fascistas ou autoritárias.
Embora todos estes partidos tenham a sua quota-parte de apoiantes, que têm uma abordagem mais violenta ao atacar a imigração, a maior parte dos partidos na “extrema-direita” são melhor descritos como conservadores e xenófobos. A maioria advoga um sistema democrático pluripartidário e não exigem nenhuma futura revisão da constituição que pudesse repudiar consultas e equilíbrios democráticos. A maior parte exige uma soluçãonão violenta para as questões da imigração e da economia da Europa. Mesmo partidos nacionalistas como a Nova Aliança Flamenga (~17%) e o Vlaams Belang (~8%) da Bélgica são lealmente nacionalistas étnicos, mas a sua ideologia deriva mais de um desejo de reforçar os direitos da população flamenga do que das suas intenções de visar os imigrantes. A mesma tendência se aplica à bastante moderada Aliança Nacional da Letónia(~14%) e o Partido da Ordem & Justiça da Lituânia(~13%), que estão muito preocupados em equilibrar a historicamente desproporcionada influência das minorias russas que se estabeleceram nestes estados durante a era soviética.
Os únicos importantes partidos eleitos que tomam uma postura agressiva, racialista, militante são o PartidoJobbik da Hungria (~17%), oSvobodada Ucrânia(link is external)
(~11%), a Aurora Dourada da Grécia (~7%), e o “Attack!” da Bulgária (~10%). Por exemplo, enquanto a maior parte dos partidos gregos são pelo menos até um certo ponto nacionalistas culturais (incluindo os socialistas do PASOK) que permitem que imigrantes como os albaneses se assimilem na cultura grega, só o Aurora Dourada frequentemente vê os “Gregos” como uma categoria racial exclusiva. A extrema-direita húngara, ucraniana e búlgara faz frequentemente exclusões semelhantes. Contrastando com isso, os “nacionalistas moderados” como os Democratas da Suécia estão mais interessados em travar a imigração sem limites do que em questões raciais. Muito diferentes são partidos mais militantes como oJobbik, que é muitas vezes acusado de ter ligações à Guarda Húngara (Magyar Gárda), uma organização quase paramilitar que tem sido comparada às camisas castanhas da SA Alemã. Apesar de os nacionalistas búlgaros, a Aurora Dourada e oSvoboda não terem organizações equivalentes, os seus apoiantes têm estado largamente ligados ao vandalismo e a agressões contra imigrantes, mesquitas e sinagogas em Atenas, Sofia e Kiev. Também é largamente tomado como certo que a polícia de Atenas coopera com a Aurora Dourada ou que pelo menos faz vista grossa durante as frequentes agressões a imigrantes albaneses, turcos e muçulmanos na capital
Embora as fragilidades económicas que têm varrido a UE desde 2008 se tenham tornado cada vez mais óbvias, a principal razão por detrás do aumento da direita xenófoba não é as alternativas económicas que oferece, mas sim a sua hostilidade em relação à imigração sem restrições oriunda de África, da Ásia e dos Balcãs. Mas também aqui, cada país e cada partido são muito diferentes. Os partidos xenófobos vão dos que simplesmente querem controlos fronteiriços mais apertados, aos que exigem uma política de imigração “só para brancos”, ou que exigem a total deportação das minorias. Embora praticamente todos os partidos xenófobos sejam pelo menos “eurocépticos soft”,alguns apenas exigem maior autonomia nacional dentro da UE, enquanto outros peticionam abandonar completamente a UE, sobretudo para resolverem a suposta crise de imigração.
Embora os partidos xenófobos desafiem as políticas de imigração como um todo, a maior parte da sua hostilidade está focada nos imigrantes muçulmanos, especialmente marroquinos, indonésios, árabes, somalis, afegãos e paquistaneses e também negros africanos. Importante referir que a xenofobia é frequentemente igualmente agressiva contra outros imigrantes europeus ou “brancos”, sobretudo albaneses, bósnios, gregos, ucranianos, búlgaros, polacos, bálticos, romenos e russos.Na Itália, a Liga Norte de centro-direita é mais xenófoba em relação aos italianos do sul do que em relação aos muçulmanos. A Aurora Dourada da Grécia é violentamente hostil aos albaneses. Na Suíça, a xenofobia é sobretudo dirigida contra os imigrantes da antiga Jugoslávia. Embora a maioria dos principais partidos xenófobos não sejam abertamente anti-semitas, o Jobbik da Hungria é largamente visto não só como anti-sionista mas como anti-judeu e também profundamente contra os ciganos. Os partidos de direita austríacos estão geralmente focados contra os eslavos e turcos, enquanto na Holanda o conhecido provocador Geert Wilders e o seu Partido Holandês da Liberdade (10%) são particularmente hostis contra os muçulmanos, especialmente indonésios e somalis. O militante partido Svoboda da Ucrânia (11%) dirige a maior parte da sua xenofobia contra os russos, os judeus, tártaros e os Roma, enquanto o convenientemente chamado Partido “Ataque!” da Bulgária (10%) é ferozmente contra os ciganos, contra os romenos e contra os turcos. O popular nacionalista búlgaro Volen Siderov foi tão longe ao ponto de clamar que a Bulgária ainda tem de ser libertada do “domínio turco (i.e. otomano)” enquanto os turcos e outros muçulmanos (presumivelmente os Pomaks que falam eslavo) “ocuparem” o país. Os diversos “alvos” dos partidos xenófobos demonstram que a extrema-direita é frequentemente bem sucedida em países com grandes populações imigrantes e onde a hostilidade para com os que chegam há pouco é mais forte. Igualmente, a diversidade destes alvos lembra-nos que não podemos generalizar movimentos de extrema-direita como se eles partilhassem os mesmos inimigos, as mesmas agendas, soluções ou mesmo princípios políticos.
Mapa que mostra a proporção de populações muçulmanas atualmente na Europa (incluindo populações indígenas e imigrantes). Igualmente incluídos os grupos étnicos que frequentemente são o foco da hostilidade dos partidos xenófobos.
É deste modo difícil encontrar padrões que possam explicar porquê e onde a extrema-direita conseguiu alcançar sucesso eleitoral. Muitos exemplos conduzem a resultados contraditórios e surpreendentes. É sugestivo que esta tendência ocorra durante um tempo de grandes dificuldades económicas – tal como a extrema-direita ganhou influência na Europa durante a depressão do pós 1ª Guerra Mundial no começo dos anos 20 e especialmente durante a Grande Depressão da década de 30. Considerando a ligação histórica entre instabilidade económica e ascenso da extrema-direita, é pois surpreendente que países como a Espanha e Chipre tenham movimentos de extrema-direita muito fracos apesar de terem sofrido um desemprego exponencial e uma tremenda dívida pública. Em vez disso, partidos de esquerda como o Partido Progressivo Eurocomunista de Chipre e os separatistas étnicos com tendências de esquerda da Catalunha têm tido um sucesso assinalável nos últimos anos.
Como outra possível explicação, poder-se-ia esperar que países de “trânsito” de imigrantes que recentemente experimentaram uma onde de imigração, como Malta, Itália e Chipre pudessem virar à direita. Mas não é em geral o caso. Com efeito, o poderoso Partido Nacionalista de Malta é profundamente conservador e pró-maltês enquanto a Itália tem vários pequenos partidos neofascistas como o da neta de Mussolini, Alessandra. Contudo, partidos xenófobos extremos como o Imperu Ewropew de Malta e a Forza Nuova de Itália têm tido muito pouco sucesso. Nem sequer estão no governo nacional.
Outros casos também tornam difícil encontrar padrões consistentes por detrás do crescimento da direita xenófoba. Poderíamos esperar países etnicamente diversos com grandes populações imigrantes como o Reino Unido terem fortes movimentos de direita. Contudo, o Partido Nacional Britânico não conseguiu atingir o limiar dos 5%. (O Partido da Independência do Reino Unido em crescimento é sem dúvida conservador e céptico relativamente à União Europeia, mas não é verdadeiramente xenófobo.) No entanto, a França, diversa e rica em imigrantes, viu o surgimento de poderosas figuras xenófobas como Marine Le Pen e o seu pai Jean-Marie Le Pen antes dela. Se a diversidade étnica por si só não desencadeia o crescimento da extrema-direita, poder-se-ia concluir que a homogeneidade étnica fornece um terreno mais fértil para a xenofobia. É certamente o caso da Hungria, que tem de longe o maior movimento de direita na Europa em termos de resultados eleitorais. Também a relativamente homogénea Finlândia oferece substancial apoio aos partidos nacionalistas xenófobos como os Verdadeiros Finlandeses (~19%). Mas, outros estados relativamente homogéneos como a Polónia e a Noruega têm fracos partidos xenófobos.
Poderíamos também ser inclinados a olhar para características culturais básicas que pudessem explicar o crescimento da extrema-direita. É talvez intrigante que a Hungria pareça ser o primeiro país a virar para a extrema-direita, quando foi o primeiro a aprovar legislação anti judia nos anos 30 quando Miklos Horthy instalou uma ditadura de direita. No entanto, a xenofobia cultural por si só não parece emprestar sucesso eleitoral aos partidos de extrema-direita. Um exemplo excelente aqui é o da Roménia. Embora a cultura romena seja frequentemente descrita como profundamente xenófoba e agressivamente racista (particularmente contra os Roma e os Judeus e mesmo contra os Húngaros até certo ponto), o parlamento romeno é quase completamente social-democrata e socialista. O mesmo se podia dizer acerca da Polónia, da Sérvia e da Croácia. Mesmo países com passados marcados por genocídios como a Eslováquia, a Alemanha, a Croácia e a Sérvia não têm fortes partidos de direita. Outro exemplo chave é a Rússia. Embora a Rússia tenha aquilo que muitas fontes consideram ser a mais virulenta subcultura de skinheads e neonazis que fomentam a violência contra imigrantes do Cáucaso e da Ásia Central – partidos de extrema-direita como a Grande Rússia e a União de Todos os Povos da Rússia têm muito pequeno sucesso eleitoral. Resumindo, não parece haver nada de inerente nas culturas nacionais europeias que ponha no poder os partidos xenófobos.
Uma última explicação acrescenta perspectiva e contradição. Podíamos esperar que países que enfrentam uma fase de transição difícil, traumática ou confusa se deslocassem para movimentos extremistas. Os estudos têm mostrado que o neonazismo, o nacionalismo e o Partido Democrático nacional estão muito mais fortes na antiga Alemanha Oriental do que no resto do país desde a queda do Muro de Berlim. Assim também este conceito de transição pode explicar por que os búlgaros e os ucranianos tendem a apoiar a extrema-direita à medida que se distanciam do seu passado comunista. Contudo, esta explicação cai por terra quando olhamos para outros antigos estados socialistas como a Roménia, a Polónia, a Rússia e a República Checa onde a extrema-direita é bastante débil. Só a transição e a insegurança cultural não dão uma explicação.
Dois exemplos finais são talvez os mais surpreendentes quando se tenta explicar o aumento da extrema-direita: Noruega e Suécia. Os partidos de direita nunca tiveram grande sucesso em qualquer dos dois países. O poderoso Partido Progressivo (~22%) é apenas ligeiramente xenófobo e é mais bem descrito como nacionalista conservador. Os Democratas da Suécia são muito mais violentamente xenófobos mas só recentemente quebraram o limiar mínimo de 5% necessário para entrar no governo. Contudo, ao longo dos anos 90 e mesmo nos dias de hoje, a Noruega e a Suécia viram algumas das mais brutais ondas de violência contra os imigrantes na Europa. Embora estas atitudes não estejam de modo nenhum disseminadas na Escandinávia, esta aparente contradição podia reforçar a nossa conclusão de que a xenofobia cultural não significa que partidos xenófobos serão eleitos.
Como este post demonstrou, a direita xenófoba tornou-se mais generalizada do que a maior parte dos observadores se aperceberam. Isto talvez seja desconcertante. Ao mesmo tempo que muitos europeus exigem maior integração e cooperação de modo a resolver os problemas da Europa, números crescentes de pessoas deslocam-se na posição inversa, advogando mais nacionalismo, homogeneidade e xenofobia. Contudo, a reação instintiva para interpretar esta tendência como um renascimento do fascismo, do nazismo, racialismo ou ditadura é tão sensacionalista quanto simplista. A direita xenófoba advoga plataformas culturais, políticas e económicas radicalmente diferentes em resposta à suposta crise da imigração. Também como os casos acima demonstram, não conseguimos explicar quando e porquê a extrema-direita ganha força, apontando para padrões culturais, demográficos e económicos comuns. Quando consideramos os casos conflituantes e contraditórios na Europa anteriormente mencionados, fica por encontrar exatamente o que leva a que partidos da extrema-direita se tornem tão rapidamente populares. Cada movimento xenófobo tem de ser observado, com compreensível preocupação, país a país.
Depois de longos tres anos de recessão profunda, a economia
brasileira parece estar pronta para voltar a “crescer”. Entre aspas porque,
segundo o Boletim Focus, uma pesquisa junto aos analistas de mercado sobre
projeções para o futuro, o que se espera para 2017 é um crescimento de cerca de
0,5%.
É verdade que, graças à longa e forte recessão, há muita
capacidade ociosa na economia. Isso é representado pela elevada taxa de
desemprego – 13,9%, ou 14,2 milhões de desempregados -, bem como pelo baixo
nível de utilização da capacidade – indicador que, em março, atingiu 77%.
Em outras palavras: há espaço para, pelo menos por algum
tempo, crescimento acima do chamado “potencial” sem gerar pressões
inflacionárias. Mas quando esgotar-se tal espaço, estaremos limitados pela
nossa capacidade de fazermos mais com menos. Tal capacidade, porém, só se
expandirá com reformas que melhorem nosso ambiente de negócios. Caso contrário,
estaremos fadados à morosidade econômica.
O que é “crescimento potencial”?
Tome como exemplo uma fábrica de automóveis que, em um ano,
pode produzir 500.000 unidades. Suponha também que, em 2016, tal fábrica
produziu 300.000 unidades. Por fim, admita que a capacidade de produção da
fábrica não cresça, enquanto a produção cresce a 2% ao ano. Naturalmente, como
deve imaginar o leitor, essa situação só é sustentável enquanto houver
capacidade ociosa (isto é, enquanto a fábrica estiver produzindo abaixo de sua
capacidade).
Tal situação é análoga ao PIB de um país. O chamado “PIB
potencial” corresponde a quanto um país pode produzir na situação de “pleno
emprego”; seu crescimento, por sua vez, é chamado de “crescimento potencial”.
Como no caso da fábrica, só é possível crescer acima do potencial (sem gerar
pressões inflacionárias) enquanto houver capacidade ociosa, ou seja, enquanto
os galpões estiverem vazios e ainda haja pessoas para serem contratadas.
Quando o desemprego chega no piso e os galpões ficam cheios,
porém, estamos limitados a crescer ao ritmo da expansão potencial. Não é mais
possível contratar mais pessoas: é preciso expandir a produtividade ou, caso prefira
o leitor, o produto por trabalhador. Não é à toa que, certa vez, muito bem
disse o economista e Prêmio Nobel, Paul Krugman, que “No longo prazo, a
produtividade é quase tudo”.
De 2003 a 2013, o PIB brasileiro (isto é, quanto realmente
produzimos) cresceu acima do PIB potencial. Nesse período, o potencial cresceu
a uma média de 3,6%, enquanto o PIB “efetivo” cresceu mais de 4%. Como
resultado, o chamado “hiato do produto” (uma medida de ociosidade da economia),
passou para o campo fortemente positivo – o que significa que estávamos
produzindo acima de nossa capacidade.
A taxa de desemprego, por consequência, caiu, junto com um
aumento expressivo da chamada NUCI (Nível de Utilização da Capacidade
Instalada). O desemprego foi de 13,1%, em outubro de 2003, para um mínimo de
4,6%, em junho de 2014. A NUCI, por sua vez, saiu de cerca de 79% para perto de
85% ao longo da primeira década do século.
Estimativas do IPEA, contudo, não são nada animadoras. Estudo
realizado por José Ronaldo de Castro indica que, nos próximos anos, nosso PIB
potencial deve crescer à letárgica taxa de menos de 2% a.a. Considerando um
crescimento populacional médio de 0,6% a.a., como projetado pelo IBGE para os
próximos 10 anos, isso nos levaria a uma expansão da renda per capita da ordem
de 1,3% a.a.
Para que o leitor tenha dimensão do quão baixo é esse
crescimento, considere que, a esse ritmo (de 1,3% a.a.), a renda per capita
levaria 54 anos para dobrar. Esse tempo cai para 35 anos, caso ela cresça a uma
velocidade de 2% a.a., e seria de apenas 24 anos caso a renda crescesse 3% a.a
A produtividade brasileira
Existem muitas teorias que tentam explicar por que o Brasil é
improdutivo. Uma das mais comuns, e o leitor já deve ter se deparado com ela,
diz que “o Brasil é pouco produtivo porque produz coisas de baixo valor
agregado”. Segundo essa narrativa, seríamos improdutivos porque produzimos soja
e café, não iPads.
Quando olhamos para os dados, porém, tal teoria não se
sustenta. Estudo da FGV faz comparações contrafactuais interessantes entre o
Brasil e o resto do mundo. Primeiro, os autores fazem o seguinte exercício:
qual seria a produtividade do Brasil, se mantivéssemos nossa produtividade
setorial, mas deslocássemos mão de obra para outros setores, adotando a
composição setorial de outros países do mundo?
Em outras palavras: quão produtivos seríamos se movêssemos
trabalhadores para os setores onde estão os americanos, ingleses e alemães, mas
continuássemos tão produtivos quanto hoje? O que eles encontram é que a
produtividade média do trabalhador brasileiro, tivesse o Brasil a mesma
estrutura produtiva que os EUA, seria cerca de 68% maior. Tal ganho é de 54%,
na comparação com a França; 62%, na comparação com a Coréia do Sul; e 51%, na
comparação com o Japão.
Mas os autores vão além: qual seria a produtividade média do
trabalhador brasileiro caso ele fosse tão produtivo quanto o americano, nos
diversos setores da economia, mas continuasse empregado onde já está? Dito de
outra forma: e se nós continuássemos produzindo soja e café, mas fossemos tão
eficientes quanto japoneses, suecos e franceses?
O que os autores encontram é que, nessa segunda comparação,
os ganhos de produtividade seriam da ordem de 430% se fossemos tão produtivos
quanto os americanos; 258%, na comparação com o Reino Unido; e 238%, quando
comparados à Finlândia.
O que se pode concluir, portanto, é que não somos mais pobres
porque nos especializamos em setores menos produtivos; somos mais pobres, sim,
porque somos ineficientes na maioria das atividades que exercemos. Com a mesma
quantidade de insumos que americanos, japoneses ou alemães, produzimos menos.
O que faz a produtividade crescer?
Essa talvez seja a maior pergunta da Economia. O que faz
alguns países serem mais produtivos do que outros?
Certamente, o acúmulo de capital físico (leia-se: máquinas,
instalações e afins) explica parte significante das diferenças de
produtividade; o mesmo pode ser dito em relação ao capital humano (educação,
experiência) e à tecnologia. De fato, trabalhadores mais instruídos e melhor
equipados produzem mais com a mesma quantidade de insumos, o que se reflete em
maiores salários. Mas isso não é tudo. Nas últimas décadas, vem se criando um
consenso em torno da explicação que encontra maior aderência aos dados: as
instituições.
As instituições são as regras que nos governam. As leis, os
códigos, os processos, a moral e os costumes são todos instituições formais ou
informais. Hoje, sabe-se da importância do Estado de Direito, de leis
trabalhistas e um código tributário simples, segurança jurídica e direitos de
propriedade bem definidos.
Segundo Daron Acemoglu e James Robinson, em Por que as nações
fracassam, instituições de boa qualidade são chamadas de “inclusivas”; já as de
má qualidade, recebem o nome de “extrativistas”. As primeiras estimulam a
competição, os ganhos de produtividade, a inovação e inventividade, a criação
de novos produtos e negócios, o empreendedorismo, o melhor aproveitamento das
habilidades individuais, a capacitação, etc. Em resumo: geram bons incentivos
de mercado.
Já as instituições extrativistas são aquelas que extraem
renda de toda a sociedade para determinados grupos de pressão. É o caso, por
exemplo, dos empréstimos subsidiados via BNDES a projetos que não se
justificam; do elevado prêmio salarial do setor público; do protecionismo
comercial; da enorme e redundante burocracia, que só traz ganhos aos próprios
cartórios, entre tantas outras.
Afinal, para que bolar uma grande ideia e abrir um novo
negócio, quando se pode ganhar bem com estabilidade no serviço público,
conseguir um empréstimo barato no BNDES ou enriquecer com uma reserva de
mercado conseguida junto a agências reguladoras? Otaviano Canuto, diretor do
Banco Mundial, conta (a partir do instante 16:20) como, na tentativa de
atualizar a Lei de Falências brasileira, esbarrou em diversos grupos cartoriais
e do Direito público que ganhavam dinheiro com a situação anterior da Lei.
Carlos Góes, economista do FMI, mostrou, em estudo recente, o
impacto positivo das instituições sobre o PIB per capita. Os dados organizados
pelo Banco Mundial, no relatório chamado de Doing Business, que mede a
facilidade de se fazer negócios, são reveladores: os países mais ricos são
aqueles onde se é mais fácil abrir e fechar empresas, contratar e demitir,
comprar e vender e transformar ideias em negócios.
Tão importante quanto permitir a abertura de novas e mais
eficientes empresas, é facilitar o fechamento de empresas velhas e
improdutivas. Hsieh e Klenow, por exemplo, mostram como entre 30 e 50% da
diferença de produtividade entre os EUA e a China, e entre 40 e 60% da
diferença entre EUA e Índia, se deve à maior presença de empresas ineficientes
nos dois países emergentes.
Países pouco produtivos, seja por lobby, ideologia ou
corrupção, preservam empresas ineficientes, às custas da produtividade média. O
processo de mercado é uma entrada e saída constante de empresas de surgem e vão
à falência, promovendo ganhos que se espalham por todo o resto da economia. É
claro que se trata de uma dinâmica dolorosa – especialmente para aqueles que
perdem seus empregos -, mas o corolário são ganhos constantes de eficiência.
Instituições no Brasil
Como mostrado no gráfico acima, o Brasil não é conhecido por
ter as melhores instituições do mundo. Somos apenas o 123º colocado no dito
ranking. Importante, porém, é olharmos para o filme, não apenas para a foto.
Na década de 90, desde o governo Collor, foram implementadas
uma série de reformas estruturais que modificaram o paradigma da economia
brasileira. A abertura comercial daquela época, por exemplo, como documentado
por Lisboa, Menezes e Schor, trouxe ganhos expressivos ao crescimento da
produtividade das firmas por permitir um maior acesso a insumos e bens de
capital mais eficientes.
A ampla rodada de privatizações, bem como a quebra de
monopólios estatais, a liberalização e construção de mercados, a reforma
promovida no sistema financeiro, bem como tantas outras, trouxeram ganhos ao
crescimento da chamada Produtividade Total dos Fatores (PTF) – uma espécie de
medida geral de produtividade da economia – anos à frente. Na década de 2000,
também foram realizadas reformas importantes, como a introdução do crédito
consignado – que reduziu os juros ao tomador sem onerar o Tesouro.
A agenda para aumentar a capacidade de crescimento da
economia brasileira passa por reformas que beneficiem o crescimento da
produtividade. Para tanto, são necessárias uma reforma tributária que diminua a
complexidade do nosso código de impostos, bem como a multiplicidade de
alíquotas e regimes; uma reforma trabalhista que diminua a insegurança
jurídica, amplie a flexibilidade na relação patrão-empregado e permita a
manutenção de empregos em tempos de crise; maior abertura ao comércio exterior
e integração às cadeias globais de valor; melhorias do ambiente de negócios
brasileiros, diminuindo o tempo e os processos necessários para se abrir e
fechar empresas, facilitando a competição e o processo de mercado e reduzindo o
chamado Custo-Brasil; além de mais um sem-número de reformas microeconômicas.
Todo ganho de eficiência e produtividade, sem descuidar dos
mais vulneráveis, é muito bem vindo. A agenda não é de fácil implementação, pois
envolve contrariar grupos de interesse que não estão dispostos a perder seus
privilégios e proteções. Ao fim e ao cabo, entretanto, a grande maioria sairá
ganhando.
Os idiotas da imprensa encomendada dizem que o Presidente da República pecou pelo silêncio em uma gravação apresentada pelo verme endinheirado e empoderado pelos Governos Lula e Dilma, e que agora se sabe ter sido editada e manipulada. Estamos diante de uma conspiração contra a República.
Conspiração?
O episódio da fita não se esgota no campo improvável das questões criminais. Revela uma conspiração armada contra a República.
O alvo aparente dos conspiradores é o presidente.
O alvo real, primário, é retardar o avanço das instituições de controle financeiro e fiscal em direção aos bilhões auferidos pela corrupção, depositados nos paraísos fiscais, bancos, lavanderias e países ditatoriais – essenciais para a sobrevivência do projeto criminoso de poder dos populistas apeados da presidência da república junto com Dilma Rousseff. Impedir que a estrutura do BNDES revele o tamanho do rombo produzido nos cofres do Brasil.
O alvo secundário é a paralisação das reformas contrárias ao interesse das corporações públicas e privadas.
O terceiro objetivo é dissimular e diluir, com a crise, a corrupção bilionária que envolve não apenas quase dois mil políticos da República mas, também, os altos funcionários do executivo e judiciário no Brasil.
O objetivo estratégico do golpe tentado com a delação e fuga dos vermes da JBS, sem dúvida, é gerar uma crise que produza uma intervenção do STF em favor da convocação de eleições diretas, antecipando o pleito eleitoral. Nesse caso, Lula estaria em condições de se candidatar e, de quebra, sob a égide dos contratos de manutenção das atuais urnas eletrônicas – sem impressão física do voto, antes de 2018…
Todo mundo é idiota?
Agiram todos os envolvidos no embrulho procedimental como se o povo brasileiro fosse idiota… incluso os demais operadores do direito.
É de uma obviedade ululante que Joesley “procurou” a PGR em Brasília orientado a se antecipar às medidas de restrição que partiriam de Curitiba – na alçada do Juiz Moro.
Como não poderia chegar na instância superior de mãos abanando… tratou de “armar” a gravação com Temer e a ligação telefônica com o Senador Aécio – pois desta forma, ficaria “livre” das garras da Força-Tarefa da primeira instância (que já estava fustigando as atividades predatórias da JBS).
Assim, “de quebra”, face aos objetivos acima já expostos, os conspiradores atropelaram a força-tarefa da Lava-Jato na primeira instância e acertaram os ponteiros para os irmãos Batista, serem recebidos de braços abertos diretamente na PGR e no STF, em Brasília.
Uma vez ali, “escolheram” o que deveriam ressaltar para a mídia e, retardaram o que deveriam de há muito ter sido remetido a Curitiba – fatos que seriam da alçada do Juiz Moro – seguindo o raciocínio torto de fatiamento da investigação elaborado pelo próprio STF.
Dessa forma, sem atentar para todos os elementos constantes do caso, agindo de maneira totalmente diversa do procedimento adotado para a ODEBRECHT, os insignes operadores envolvidos na conspiração, praticamente DERAM FUGA à dupla de vermes da JBS e seus executivos.
Permitiram que saíssem do país, com direito a levar os bens, o dinheiro roubado do povo brasileiro, os segredos das “parcerias e sociedades” com os próceres do PT – suspeitadas de há muito, e as contas secretas relativas aos bilhões em paraísos fiscais – que desta forma ainda servirão para financiar a campanha lulopetista de reconquista da presidência da república.
Fizeram tudo de uma penada, em poucas semanas, em período dez vezes inferior ao que demoraram para colher todo o processo de delação da Odebrecht, da UCT, da OAS, da Engevix… e, de quebra, deixaram como uma “linguiça aos cães”, a gravação manipulada de Temer.
Como se o mundo fosse composto de otários, os conspiradores agora passam a divagar sobre a tal gravação da conversa presidencial… deixando de lado a monstruosidade do assalto aos cofres públicos e distribuição em larga escala de propinas ocorrida nos governos de Lula e Dilma – igualmente referidos pelos vermes impunes.
Como se diz em Goiás – Temer serviu de “boi de piranha”, para sangrar a jusante enquanto toda a boiada passava a montante, pelo riacho do STF.
Sejamos claros. Há nesse caminho grotesco uma pilha de mortos, de empresas quebradas propositadamente para dar vez á cartelização, gente chantageada, reputações destruídas, muita corrupção e compra de silêncios… que simplesmente se foram em um procedimento absolutamente escandaloso e irregular…
Não se está lidando, aqui, com amadores ou gente pacífica.
Da mesma forma, não há “abandono voluntário” de projetos de poder, envolvendo bilhões de dólares e interesses internacionais inconfessáveis – sem luta e sem sangue.
Vermes, como já dito em artigo anterior, devem negociar como devem morrer, jamais devem continuar a sobreviver no mesmo organismo – pois nesse caso voltam a proliferar. E foi justamente o que fizeram a PGR e o STF com os vermes da JBS.
É esse o foco para o qual precisam todos os cidadãos e instituições de bem, permanecerem atentos.
Janot e Fachin – meras peças ou protagonistas?
O lixo lulopetista investigado na Lava-Jato é o maior interessado no caos. No entanto, esse lixo foi o mesmo que nomeou o ministro-relator Fachin, para o STF, e o Procurador Geral da República, Janot.
Não dá para não constatar que o imbróglio em torno de Temer auxilia o aparato financeiro da corrupção montada pelo Lulo-Petismo, que envolve JBS e Odebrecht.
Ao aceitar o primeiro, e propor o segundo, investigar-se o Presidente de República em pleno mandato, com base em prova manipulada em delação premiada, Fachin e Janot, espera-se que involuntariamente, praticamente urdiram a crise política em o país agora mergulhou.
Para piorar, o símbolo maior das “maracutaias” do capitalismo dos amigos, a JBS, viu-se beneficiada no momento em que protagonizou uma tramoia que põe em cheque a própria credibilidade da Lava-Jato na esfera do STF.
De fato, as duas autoridades máximas do judiciário e do Ministério Público permitiram que a dupla de empresários oportunistas, dona da JBS, abandonasse o Brasil com seus bens e de posse de bilhões especulados com a própria crise, mantivessem o controle de suas empresas e, de quebra, fossem anistiados de eventos futuros.
Prova ilegal?
Não há como não reconhecer haver um conluio.
A dita e redita gravação jamais poderia constar em qualquer processo público digno deste nome.
A gravação do diálogo truncado entre o delator e o presidente da república é de uma torpeza intrínseca – expressa atitude especulativa de um verme acuado pelo Ministério Público em busca de algo incriminador (qualquer coisa), contra o chefe de Estado da República.
A gravação revela algo de extrema gravidade. Não poderia ser autorizada por não cumprir qualquer finalidade lícita a não ser provocar um flagrante – que de toda forma não ocorreu.
Flagrante preparado é ilegal. Não é meio de prova.
A gravação no entanto, é uma peça adulterada sem finalidade clara, meramente especulativa. Uma fraude que subsidia outra fraude.
Não sendo previamente autorizado, o material tornou-se meio ilícito de prova, pois tem caráter injurioso, difamatório – e se enquadra no tipo penal do art. 26 da Lei de Segurança Nacional. Não poderia de forma alguma ser admitida.
Fosse o verme delator surpreendido, no palácio do Jaburu, com o gravador no bolso, seria imediatamente preso. No entanto, sua atitude terminou “incensada” pela PGR e pelo STF… Uma inacreditável inversão de valores – sintomática de condutas que podem, em tese, levar á responsabilização do Procurador Geral Janot e do Ministro Relator do STF, Fachin.
Abuso de autoridade?
A coonestação do MPF e STF com o mal feito é extremamente grave e atenta contra o Estado Democrático de Direito.
A figura em questão não poderia ser tratada com tamanha leviandade por quem exerce autoridade judiciária. Há necessidade de controle expresso, objetivo e específico na tutela penal de ato atribuído ao Presidente da República, para se autorizar uma investigação. Em nenhuma hipótese se admite controle difuso de tutela penal a sujeito enquadrável em regime de controle específico.
No caso em tela, com base no que foi até agora divulgado – está-se autorizando um processo de investigação “em aberto” – que poderá permitir toda sorte de abuso em prejuízo da autoridade máxima no exercício do mandato presidencial. Um descalabro Kafkiano, doentio.
Esse abuso, com todo o respeito, implica em absoluta extrapolação de atribuições, envolvendo agentes públicos que parecem agir conluiados, decididos a conspirar contra o chefe da República. Interessados em desestabilizar.
Parece que o objetivo é destruir o Estado de Direito e iniciar o Estado de Exceção Judiciária, sob a égide da República dos Delatores.
Enquanto essa desavergonhada excrescência repercute como factoide a serviço do golpismo, o Brasil sofre com o enorme prejuízo da especulação com o câmbio do dolar em clima de “inside information”, praticado pelos próprios delatores, cujo lucro resultou maior que a irrisória e danosa quantia por eles paga no acordo com o MPF, homologado pelo STF…
No final, ao que parece, o “esquema” saiu baratinho…
Nunca é demais lembrar que esse episódio integra uma série de outro episódios absolutamente estranhos, envolvendo a condução da Lava-Jato na instância do STF. Da divulgação de uma lista que embaralha alhos e bugalhos à soltura em série de elementos-chave para o deslinde dos fatos, passando pelo imbróglio das divulgações seletivas de material probatório, o STF invade sistemativamente esferas de atribuição constitucional do legislativo, fragiliza a condução do processo investigativo levado a cabo na primeira instância e, em vez de resolver conflitos, os cria.
Porta Giratória entre defesa e acusação?
O escândalo não para por aí, já é merecedor de outra força tarefa similar á Lava-Jato.
Verdadeiros palácios de mármore, granito e madeiras nobres, foram construídos nas décadas de corrupção abrangidas pelos processos de delação e obtenção de provas em curso na operação lava-jato.
O fio condutor do grande assalto ao Brasil passa pela pela cartelização da advocacia. Nesse processo de cartelização, o fenômeno criminológico da corrupção foi suportado por firmas jurídicas poliglotas, polivalentes, poli especializadas, plenas de pose, ostentação e arrogância. Firmas que elaboraram os contratos fraudulentos, organizaram as operações de evasão de divisas, estruturaram project finance de parcerias corrompidas, hospedaram transações corruptas, elaboraram e traçaram os planos de “proteção tributária” das falcatruas, redigiram os contratos de offshores, acompanharam as transações bancárias com lavanderias nos paraísos fiscais latino-americanos, suíços, russos e chineses, organizaram as minutas de editais e licitações viciadas, traçaram os regulamentos escapistas e auxiliaram ativamente o pool de bancos, corretoras e casas de câmbio responsáveis diretos pela lavagem do dinheiro sujo roubado dos milhões de cidadãos brasileiros.
Não raro, parte desse setor cartelizado que conspurcou a advocacia nacional, tratou de patrocinar e financiar jornalões e jornaizinhos, revistões e revistinhas, anuários e premiações, visando canalizar mais clientes e cartelizar ainda mais o mercado.
O fenômeno da cartelização no setor da advocacia é real, e deveria estar sendo tratado com muito critério pela Ordem dos Advogados do Brasil, Institutos de Advogados, associações advocatícias e sindicatos. No entanto, o silêncio é diretamente proporcional á proletarização ocorrente na profissão. A conexão é óbvia. Várias dessas firmas tomaram de assalto as associações de classe, financiaram marionetes em suas direções, aparelharam os conselhos e reduziram os organismos ao silêncio vergonhoso que hoje se observa na classe dos advogados em todo o Brasil.
O acima dito constou em outro artigo clamando por uma “Lava Jato na Advocacia”*. Porém, tirante considerações de valor acima postas a casos mais graves, vale como referência e reflexão face ao ocorrido no episódio do conluio contra a República protagonizado pelos irmãos Wesley e Joesley Batista. PGR e STF.
Segundo apurou a colunista do Estadão, Vera Magalhães, em matéria publicada dois dias após iniciada a crise de divulgação das gravações, “a grande explicação para o vantajoso acordo de Joesley Batista com a Lava-Jato foi a contratação do ex-procurador da República Marcelo Miller, hoje advogado. Foi ele quem assessorou o empresário nas negociações com os antigos colegas.”
É estarrecedor! Miller era braço-direito de Rodrigo Janot no Grupo de Trabalho da Lava Jato até março deste ano.
Não se sabe se Miller cumpriu a necessária quarentena, se entende que a ética o proibiria de atuar no mesmo caso, alternando os polos de participação ou se, ainda que não diretamente envolvido, o escritório que o contratou poderia manter-se em um dos polos da mesma investigação. O fato é que, ao largo de qualquer controle da OAB, o referido profissional saiu da carreira pública para atuar, de imediato, no escritório de advocacia que negocia os termos da leniência do grupo JBS junto à Procuradoria Geral da República.
O escritório que contratou o procurador que investigava a JBS, foi o mesmo que fechou o acordo de delação premiada na operação. Um escândalo de proporções gravíssimas, que atinge a dignidade de toda a advocacia brasileira e envergonha o ministério público nacional – e que só pode ser admitido em um ambiente institucional desprovido de valores morais e éticos.
“A decisão de Miller de deixar o MPF para migrar para a área privada pegou a todos no MPF de surpresa, veio a público em 6 de março, véspera da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer, gravada pelo empresário, no Palácio do Jaburu, que deu origem à delação. Miller passou a atuar no escritório Trench, Rossi & Watanabe Advogados, do Rio, contratado pela JBS para negociar a leniência, acordo na área cível complementar à delação”, informa o Estadão.
Mas, para piorar a vergonhosa sucessão de fatos, a delação que saiu baratinho para os delatores ganhou, ao que tudo indica por conta da “aquisição” de know how, tecnologia inédita até então – pela primeira vez foi utilizado o instituto da “ação controlada” na Lava Jato, quando os delatores agem como verdadeiros “infiltrados na organização criminosa”, apoiados pelo aparato policial, o que lhes proporcionou os termos vantajosos negociados, como não serem presos, não usarem tornozeleira eletrônica, continuarem atuando nas empresas e – a cereja do bolo, serem anistiados nas demais investigações às quais respondem.
Com efeito, segundo o jornalão, “Marcelo Miller era um dos mais duros procuradores do Grupo de Trabalho do Janot, um núcleo de procuradores especialistas em direito penal recrutado pelo procurador-geral em 2013 para atuar na Lava Jato. Ex-diplomata do Itamaraty e considerado um dos mais especializados membros do MPF em direito internacional e penal, Miller esteve à frente de delações como a do ex-diretor da Transpetro Sergio Machado e do ex-senador Delcidio do Amaral”.
A influência do profissional no modus operandi observado no caso das gravações de Joesley Batista é notória. No episódio de Delcídio, foi usada gravação feita sem o conhecimento de quem estava sendo gravado. No caso, quem gravou foi Bernardo Cerveró, o filho do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. No caso de Sergio Machado, o delator gravou de forma imoral* vários expoentes do PMDB e ofereceu as fitas à PGR, sendo descartadas várias delas por justamente transparecer estar aquele “pescando em águas turvas”, “provocando o interlocutor para fazê-lo cair em alguma conduta criminosa”.
No caso do verme Joesley, a orientação foi a mesma, igualmente imoral, baixa, rasa e sem respeito… A diferença é que o operador mudou de lado – passou a integrar o time responsável pela defesa do delator.
A Procuradoria Geral da República, procurada, afirma que Miller não participou da negociação da delação, e que existe inclusive uma cláusula de que ele não pode atuar pelo escritório nos acordos.
Pouco importa.
Para quem, como os irmãos Batista, “contou vantagem” – que comprava todo mundo e que tinha juiz, procurador e delegado comprados no esquema… um fato como o acima noticiado… é de fazer descartar na latrina mais próxima qualquer discurso moralizador das instituições essenciais á Administração da Justiça.
Ação coordenada?
O timing do conluio contra a República é outra questão a ser levada em conta.
Fachin e Janot liberaram a gravação irregular do “diálogo” entre Joesley e Temer no final da tarde do dia posterior ao vazamento “de véspera” de sua existência, noticiada por um colunista do Jornal O Globo. Com isso, ocasionaram uma tempestade que se abateu sobre o Palácio do Planalto, visando claramente derrubar o Presidente.
A coordenação dos atores interessados – militontos petistas nas ruas, parlamentares esquerdizóides despejando pedidos de impeachment, jornalistas aparvalhados especulando sobre a renúncia do presidente e radicais de todos os matizes clamando por um golpe de estado – foi evidente.
O efeito foi a paralisação das reformas que não interessavam aos funcionários públicos privilegiados (leia-se: Ministério Público e Judiciário), e que não interessavam aos sindicatos e partidos populistas.
Pelo visto, conseguiram o intento, e conseguiram, também, conduzir em segurança, para fora do país, o núcleo de operadores do dinheiro mais próximo do lulopetismo – os que sabiam demais, que “desconhecem” o próprio sócio oculto na Offshore que divide a riqueza que auferiram á custa da sangria do Brasil.
Os vermes saíram… e preservaram o dinheiro, com as bençãos do Ministro Relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal.
Os interessados na crise protagonizaram a “paradinha de Pelé” de forma bem articulada – pretendiam nas 24 horas entre a notícia e a liberação da gravação, que agora mostrou-se manipulada, destruir a administração pública nacional.
A crise e a provável queda do Presidente Temer, por sua vez, permitiria dissimular e reduzir o nível de atenção para os escândalos de proporções bilionárias envolvendo os petistas e tucanos que eram financiados pelo propinoduto da JBS. Essa segunda parte das delações era o que realmente importava – não a especulação em torno do presidente. Nesse propinoduto, que veio à tona com a divulgação parcial das delações, no segundo momento, puderam ser identificados membros do próprio Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal, CADE… etc… etc…
Os conspiradores contra a República contaram com a firme cumplicidade da Rede Globo de Televisão, que iniciou uma campanha de enormes proporções, mantendo verdadeiro plantão pró-impeachment ou renúncia do presidente.
Há um plano B no conluio. Caso não se obtivesse a renúncia, o imbróglio visaria claramente mudar a forma de decidir do Tribunal Superior Eleitoral, cuja votação sobre o pedido de cassação da chapa Dilma-Temer deve ter início nos próximos dias.
Hora do contra-ataque?
Foram todos surpreendidos pela dura, firme e decisiva reação do Presidente da República, Michel Temer, que de imediato estancou a sangria.
Em seguida, a notícia desmoralizadora. A gravação, que já era inútil para efeito de prova do que quer que seja, foi periciada de forma independente por especialista renomado e constatou-se que se trata de reprodução editada, manipulada com mais de 50 reedições parciais e 40 interrupções dissimuladas – Uma imperdoável falta de zelo que revela uma suspeitosíssima conduta da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal, que admitiram gravação adulterada sem qualquer ressalva, como se fosse íntegra.
Agora, os idiotas da mídia, pegos no contrapé, se agarram como náufragos no trecho da gravação relativo à ajuda contada na conversa mole de Joesley a Eduardo Cunha. Um desespero que se torna patético a cada minuto – desmoralização coletiva de todo um grupo de jornalistas consagrados…
Não se tenha dúvida.Vai ter volta!
Além do quase certo o trancamento do inquérito aberto contra o presidente da República, deverá o Supremo Tribunal analisar a conduta do Procurador Geral da República e do Ministro Relator da Operação Lava-Jato. É preciso que ambos sejam responsabilizados pela crise desmoralizadora que encetaram com o imbróglio da delação e facilitação da vida dos vermes da JBS.
É o caso, também, de investigar a fundo a porta-giratória aberta entre Ministério Público e o cartel de das padarias jurídicas (os escritórios de advocacia). A mudança de lado no bojo do mesmo processo de investigação, de profissionais envolvidos no caso da JBS – é algo inaceitável para a Justiça e a Advocacia. É preciso que MP e OAB apurem o fato com rigor.
É preciso ir a fundo no esclarecimento da manipulação das gravações e, na investigação dos responsáveis, inclusive o papel protagonizado por agentes da Justiça, Polícia Federal e Ministério Público. Não se poderia “apoiar” a manipulação escapista encetada pelos canalhas que despejaram bilhões no esquema de corrupção apurado na Operação Lava-Jato e, pelo visto, ainda saíram do episódio ganhando…
É preciso, por fim, aproveitar a crise para depurar a base de apoio ao governo, mudar comportamentos e restaurar a República.
O fato de mais lixo ter aparecido á tona, pode servir para que a presidência da república se livre das últimas amarras que a impedem de realizar as reformas necessárias à higidez política e econômica do Brasil.
Se Temer tiver o que responder, que assim seja. O que não pode é permirtir-se protagonizar uma crise política sem precedentes apenas para… manter os dedos longos do populismo corrupto lulopetista sobre o processo político-eleitoral antes de 2018, deixando livres seus financiadores principais.