Pobreza e falta de planejamento ameaçam velhice de 60% dos jovens
Estudo do BID demonstra necessidade de planejamento desde cedo e a urgência de investimento na educação previdenciária
O desequilíbrio das contas da Previdência Social trouxe um problema cuja solução a longo prazo passa pelo corte de benefícios. Isso ocorrerá diretamente, com redução do valor, ou indiretamente, por meio de contribuições maiores — mais polpudas, durante mais tempo ou as duas coisas. Nesse quadro, estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostra que 60% dos jovens que estão ingressando agora no mercado de trabalho chegarão à aposentadoria, em 2050, sem ter gerado economia o suficiente para levar uma velhice com qualidade. Além de não contribuírem o suficiente à Previdência, não têm a consciência do quanto é importante poupar agora para garantir qualidade de vida quando os gastos com saúde tendem a aumentar.
O estudo do BID indica que, mesmo dentre os trabalhadores autônomos, mais expostos à instabilidade, portanto acostumados a poupar, apenas três em cada 10 guardam dinheiro para se aposentar. A responsabilidade de planejar, porém, não é só dessas pessoas: o estudo do organismo internacional demonstra que o Estado precisa promover campanhas de incentivo ao início precoce da poupança.
Informar as pessoas sobre o tema é uma meta de governo, embora as ações ainda sejam embrionárias.
O caminho a ser percorrido é longo. Alguns jovens até economizam, mas não para a velhice. É o caso de Gilmar da Silva Felix, 28 anos, funcionário de uma loja de sapatos. Ele recebe R$ 1,2 mil por mês e contribui para um plano com R$ 72 de Previdência.Privada "Eu sei que esse valor não é o suficiente para mais tarde porque o custo de vida só cresce", comenta. O vendedor explica que a única reserva que faz é para garantir a formação dos filhos. “Para a aposentadoria, não. Acho que falta uma divulgação por parte do governo para alertar a população sobre isso", diz.
Um agravamento da situação é o alto índice de empregos informais no país, muitos brasileiros não ganham suficientemente bem para contratar uma previdência complementar. O estudo feito pelo BID mostra que 21% das pessoas que trabalham hoje com carteira assinada não estarão nessa situação no prazo de um ano. Por conta dessa instabilidade, o benefício a ser recebido no futuro acaba sendo menor, ou mesmo inatingível.
Autônomos
A estudante Nathiele de Lima Vieira, 21 anos, trabalhou informalmente durante oito meses e reconhece que isso poderá prejudicá-la. "Vou ter que recompensar isso à frente", afirma. Ela conseguiu um emprego com carteira assinada neste mês, mas não pensa em fazer uma reserva extra para complementar a aposentadoria.
O presidente do Instituto de Estudos Previdenciários (Ieprev), Roberto de Carvalho, acredita que a criação de mais políticas de educação previdenciária poderia contribuir também com a formalização. "Ajudaria a alertar os autônomos sobre a importância de contribuir", observou Santos.
Desequilíbrio expõe atraso
O desequilíbrio do sistema previdenciário brasileiro, que fechou 2015 com um déficit de R$ 51 bilhões, expõe a legislação atrasada sobre o tema. Para os especialistas, a Previdência Social não será capaz de se sustentar futuramente se continuar nos moldes atuais. A falta de uma idade mínima para aposentadoria, por exemplo, existente na maior parte do mundo, faz com que as pessoas parem de trabalhar ainda jovens e sigam sustentadas pelo governo por várias décadas.
"Quando a pessoa se aposenta antes dos 60 anos, vai ter três décadas de vida pela frente, em média. Não tem como o Estado sustentar: em nenhum país do mundo isso é possível", explica o especialista no tema Renato Fragelli, professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV).
O Brasil é um dos quatro países que não exigem idade mínima para se aposentar, ao lado de Grécia, Irã e Equador. "A Grécia tem o modelo mais parecido com o brasileiro. O agravante é que lá há um perfil etário mais envelhecido. E eles enfrentaram uma forte crise exatamente por causa da Previdência", pontua o sSecretário de Políticas de Previdência Social, Leonardo Rolim.
Hoje, desde que a mulher tenha os 30 anos de contribuição ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o homem, 35 anos, pode-se parar de trabalhar com direito ao benefício, independentemente da faixa etária. O cidadão também tem a opção de receber um benefício menor se usar como critério a idade — eles aos 65 anos e elas aos 60 —, desde que tenha colaborado com o INSS por pelo menos 15 anos. Nesses casos, a Previdência faz um cálculo complexo que leva em consideração, entre outras coisas, 80% das maiores contribuições feitas após o ano de 1994 para chegar ao valor final que será recebido pelo aposentado.
O professor da FGV afirma que o governo brasileiro gasta o dobro do que deveria com aposentadorias. As despesas com os benefícios previdenciários representaram, no ano passado, 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB). "O governo tentou desestimular a aposentadoria precoce com a implantação do fator previdenciário, que incentiva a pessoa a estender o tempo de contribuição. Mas o brasileiro é imediatista. Pelo menos, o fator segura a despesa, porque diminui o benefício de quem se aposenta cedo", explica. A economia total desde que essa equação foi implementada, em 1999, é de R$ 42,8 bilhões.
Como a doutrinação
ideológica marxitas atua na educação brasileira, quer em escolas particulares ou públicas.
Educação, eis a palavrinha mágica no discurso dos políticos
e nas faixas de campanha, nos gritos de protesto e nas passeatas sindicais, a
solução inevitável para todos os nossos problemas.
Na posse do segundo mandato da atual presidente, ela foi a
estrela máxima:
“O novo lema do meu governo, simples direto e mobilizador,
reflete com clareza qual será a nossa prioridade, e sinaliza para qual setor
deve convergir nossos esforços. Trata-se de emblema com duplo significado.
Estamos dizendo que a educação será a prioridade das prioridades, mas também
que devemos buscar em todas ações de governo um sentido formador.”
Como apontamos por aqui, a nossa educação não anda muito bem
das pernas. Atualmente 95% dos nossos alunos saem do ensino médio sem
conhecimentos básicos em matemática, quase 40% dos universitários são
analfabetos funcionais e 78,5% dos estudantes brasileiros finalizam o ensino
médio sem conhecimentos adequados em língua portuguesa. Em resumo: enfiamos
mais de 42 milhões de crianças e adolescentes em escolas públicas, a um custo
nababesco, mas ensinamos muito pouco.
E as notícias ruins não terminam por aí. Segundo dados do
Prova Brasil, 55% dos professores brasileiros dizem possuir pouco contato com a
leitura. Além disso, uma pesquisa feita pela OCDE aponta que eles perdem, em
média, 20% das suas aulas lidando com bagunça em sala de aula. Por fim, segundo
o Núcleo Brasileiro de Estágio (Nube), quatro em cada dez universitários são
barrados em seleções para estágio por causa de erros de ortografia – os
estudantes de Pedagogia lideram entre os piores índices.
Não bastasse o claro fracasso na escola como instituição de
ensino, não raramente ela é usada como instrumento para doutrinação ideológica.
De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Sensus, 78% dos professores
brasileiros acreditam que a principal missão das escolas é “formar cidadãos”
(apenas 8% apontou a opção “ensinar as matérias”) e 61% dos pais acham “normal”
que os professores façam proselitismo ideológico em sala de aula.
Evidentemente essa não é uma prática assinada por todos os
docentes – e seria chover no molhado apontar aqui que parte considerável dos
nossos professores atuam na melhor das intenções, quando não são vítimas de
material didático de péssimo gosto. Mas, ainda assim, a doutrinação atua como
uma praga numa lavoura, corrompendo a formação intelectual de incontáveis
estudantes e interferindo negativamente no ambiente de trabalho dos docentes.
Para combater a prática, o advogado Miguel Nagib criou a
organização Escola Sem Partido, “uma iniciativa conjunta de estudantes e pais
preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas
brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior”. A organização
promove o debate e denuncia práticas de doutrinação em sala de aula. Em sua
página é possível encontrar inúmeros exemplos de uso eleitoreiro e político nos
livros didáticos brasileiros, propaganda ideológica em instituições de ensino,
professores-militantes, entre outras aberrações presentes na nossa educação.
Aqui, 5 exemplos de como a doutrinação atua nas salas de
aula do país.
1) O LIVRO DE HISTÓRIA MAIS VENDIDO DO PAÍS NÃO É UM LIVRO
DE HISTÓRIA.
O nome dele é Mario Furley Schmidt e ele é o responsável por
um dos capítulos mais obscuros da história da educação no país. Mario é
considerado o autor que mais vendeu livros de História no Brasil. Sua coleção,
Nova História Crítica vendeu mais de 10 milhões de exemplares e foi lida por
mais de 30 milhões de estudantes. Só tem um problema – Mario Schmidt não é
historiador e sua obra não passa de mero panfleto marxista. Por receber 10% do
preço de cada livro vendido, porém, Schmidt ficou milionário da noite para o
dia.
A Nova História Crítica foi recomendada pelo Ministério da
Educação. Na compra feita pelo MEC em 2005, o livro representava 30% – a maior
parte – do total de livros de história escolhidos. Segundo o editor da Nova
Geração, Arnaldo Saraiva, a obra “é o maior sucesso do mercado editorial
didático dos últimos 500 anos”. Na coleção, feita para alunos de 5ª a 8ª
séries, Schmidt faz contundentes elogios ao regime cubano, afirma que a
propriedade privada aumenta o egoísmo, critica o acúmulo de capital e faz apologia
ao Movimento dos Sem-Terra (MST). Além disso, trata Mao Tsé-Tung como um
“grande estadista e comandante militar”. Por toda obra, o capitalismo e o
socialismo são confrontados com informações maniqueístas, distorções bizarras,
erros teóricos primários e releituras descompromissadas de qualquer apreço
histórico.
Nova História Crítica - Cuba
Nova História Crítica 8ª série - Neoliberalismo
2) QUE TAL PAGAR POR UM CENTRO DE DIFUSÃO DO COMUNISMO?
Sim, isso mesmo que você leu. Aconteceu na Universidade
Federal de Ouro Preto. Vinculado ao curso de Serviço Social, o Centro de
Difusão do Comunismo, sob a coordenação do professor André Luiz Monteiro Mayer,
desenvolveu dois projetos de extensão: a Equipe Rosa Luxemburgo (um grupo “de
Debate e Militância Política Anticapitalista”) e a Liga dos Comunistas (“núcleo
de estudo e pesquisa sobre o movimento do real, referenciado à teoria social de
Marx e à tradição marxista”). Não se engane: aqui não se trata de um centro
destinado a estudar teoria e história do comunismo. Só há um único propósito no
Centro de Difusão do Comunismo – como diz o seu nome, difundi-lo. E com
dinheiro público.
O centro foi impedido de atuação por um juiz da 5ª Vara da
Justiça Federal do Maranhão, José Carlos do Vale Madeira. De acordo com ele, a
administração “não pode disponibilizar bens públicos para a difusão de
doutrinas político-partidárias por mais relevantes que sejam historicamente”.
3) NOS LIVROS APROVADOS PELO MEC, PALMAS PARA LULA, VAIAS
PARA FHC.
Deu na Folha:
Livros didáticos aprovados pelo MEC (Ministério da Educação)
para alunos do ensino fundamental trazem críticas ao governo Fernando Henrique
Cardoso (PSDB) e elogios à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma das
exigências do MEC para aprovar os livros é que não haja doutrinação política
nas obras utilizadas.
O livro “História e Vida Integrada”, por exemplo, enumera
problemas do governo FHC (1995-2002), como crise cambial e apagão, e traz
críticas às privatizações. Já o item “Tudo pela reeleição” cita denúncias de
compra de votos no Congresso para a aprovação da emenda que permitiu a
recondução do tucano à Presidência. O fim da gestão FHC aparece no tópico “Um
projeto não concluído”, que lista dados negativos do governo tucano. Por fim,
diz que “um aspecto pode ser levantado como positivo”, citando melhorias na educação
e a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Já em relação ao governo Lula (2003-2010), o livro cita a
“festa popular” da posse e diz que o petista “inovou no estilo de governar” ao
criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. O escândalo do mensalão
é citado ao lado de uma série de dados positivos.
Ao explicar a eleição de FHC, o livro “História em
Documentos” afirma que foi resultado do sucesso do Plano Real e acrescenta:
“Mas decorreu também da aliança do presidente com políticos conservadores das
elites”. Um quadro explica o papel dos aliados do tucano na sustentação da
ditadura militar. Quando o assunto é o governo Lula, a autora – que à Folha
disse ter sido imparcial – inicia com a luta do PT contra a ditadura e apenas
cita que o partido fez “concessões” ao fazer “alianças com partidos
adversários”.
Em dois livros aprovados pelo MEC, só há espaço para as
críticas à política de privatizações promovida por FHC, sem contrabalançar com
os argumentos do governo.
O outro lado:
O professor Claudino Piletti, coautor do livro “História e
Vida Integrada”, da editora Ática, concorda que sua obra é mais favorável ao
governo Lula. “Não tem o que contestar”, afirmou.
Ele disse que é responsável pela parte de história geral da
obra e que a história do Brasil ficou a cargo de seu irmão, Nelson Piletti, que
está na Itália e não foi encontrado pela reportagem. À Folha Claudino disse que
critica o irmão pela tendência pró-Lula e vai tentar convencê-lo a mudar a
obra.
“Não dá para ser objetivo. O professor de história tem suas
preferências, coloca sua maneira de pensar. Realmente ele [Nelson] tem esse
aspecto, tradicionalmente foi ligado à esquerda e ao PT”, afirmou Claudino.
4) NEM OS LIVROS DE LÍNGUA PORTUGUESA FOGEM DA PROPAGANDA
IDEOLÓGICA.
Num país onde 78,5% dos estudantes brasileiros finalizam o
ensino médio sem conhecimentos adequados em língua portuguesa e quase 40% dos
universitários são analfabetos funcionais, nem os livros de Língua Portuguesa
escapam da propaganda ideológica. Lula e Fidel Castro ilustram conteúdos em
dois livros didáticos de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental. Lula
estampa o conteúdo de “expressão oral” em livro para o 6º ano (27447C0L01;
atende crianças de 11 a 12 anos) e Fidel, o conteúdo de “reconstrução dos
sentidos do texto” em livro para o 9º ano (27484C0L01, atende adolescentes de
14 e 15 anos).
Os livros de Língua Portuguesa fazem parte do catálogo do
Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação, para o triênio
2014/16. Eles foram distribuídos para escolas públicas ligadas aos governos
federal, distrital, estaduais e municipais.
Outro livro didático de Língua Portuguesa para o 6º ano do
Ensino Fundamental (que faz parte do catálogo do Plano Nacional do Livro
Didático, sob o nº 27484C0L01) usa uma charge para comparar a capacidade de
decisão da presidente Dilma Rousseff com seus adversários políticos Marina
Silva e José Serra. Como tarefa, o aluno é orientado a manter-se bem informado
sobre o tema que pretende defender – “é preciso ter opinião”, diz a chamada.
5) PROPAGANDA IDEOLÓGICA NUM LIVRO DE… EDUCAÇÃO FÍSICA?
Pois é, nem os livros de Educação Física escapam. Ao menos
não o Livro Didático de Educação Física para o Ensino Médio do Estado do
Paraná. No terceiro capítulo da disciplina, chamado “Faço esporte ou sou usado
pelo esporte?”, o livro didático público recorre ao esporte e à televisão para
afirmar que ambos sofrem influência do sistema capitalista para explorar e
dominar as massas, impondo suas idéias políticas e filosóficas.
“Regras: é preciso respeitá-las para sermos bons
esportistas. Em nossa sociedade, devemos ser submissos às regras impostas pela
classe dominante. Em nosso convívio social, devemos respeitar nossos colegas
(…), contribuindo com o êxito da equipe ‘de trabalho’, isso quer dizer
‘enriquecer cada vez mais os patrões’”, diz o livro.
“O texto é declaradamente marxista, um emaranhado de
sofismas, tendencioso do começo ao fim. A prática esportiva é secundária, o que
importa é fazer a revolução gramsciana”, diz o advogado Miguel Nagib,
presidente da organização Escola Sem Partido. Como relata o Gazeta do Povo, que
entrevistou Nagib:
“Ao falar da “potencialidade transformadora” do ensino da
Educação Física, o autor deixa claro que pretende usar a disciplina para fazer
dos alunos “agentes de transformação social”. A técnica usada para levar os alunos
a exercer o chamado “pensamento crítico” – que nunca é crítico em relação às
atrocidades cometidas nos regimes comunistas – não é a da demonstração
racional, mas a da insinuação maldosa. “O texto é repleto de perguntas
retóricas, suspeitas, que induzem o estudante a fazer uma determinada abordagem
do problema.”
Educao Fsica
Para escrever seu livro de esporte com críticas ao
capitalismo, Gilson José Caetano, formado em Educação Física, diz ter escolhido
“um recorte baseado no materialismo histórico dialético”. Ele afirma que o
marxismo seria a base teórica de consenso entre os professores que criaram as
diretrizes da Secretaria de Educação do Paraná.
Nem a prática esportiva escapa do proselitismo ideológico. E
é você, claro, quem banca tudo isso.
O documento começa fazendo uma boa análise da conjuntura
atual, com críticas necessárias que não merecem maiores digressões para o
habitual leitor de trabalhos teóricos liberais, já que as mesmas críticas já foram
estendidas e aprofundadas em diversos textos prévios.
A se destacar o último parágrafo da introdução do documento:
“As modernas economias de mercado precisam de um Estado ativo e também moderno.
Quem nos diz isto não é apenas a teoria econômica, mas a experiência histórica
dos países bem-sucedidos. Só o Estado pode criar e manter em funcionamento as
instituições do Estado de Direito e da economia de mercado, e só ele também
pode suprir os bens e serviços cujos benefícios sociais superam os benefícios
privados. Portanto, as discussões sobre o tamanho e o escopo do Estado quase
sempre se movem no vazio, porque a questão central é que o Estado deve ser
funcional, qualquer que seja o seu tamanho. Para ser funcional ele deve
distribuir os incentivos corretos para a iniciativa privada e administrar de
modo racional e equilibrado os conflitos distributivos que proliferam no
interior de qualquer sociedade. Ele faz ambas as coisas através dos tributos,
dos gastos públicos e das regras que emite.”
O argumento base desse parágrafo é bastante preocupante.
Embora a economia efetivamente precise de segurança jurídica, regras claras e
instituições sólidas, a experiência histórica nos mostra que o único meio de
atingirmos tal fim é sim através de um estado enxuto. Esse debate é fundamental
para que possamos entender quais são as funções e competências que o Estado
brasileiro deve ter. Estado moderno é sinônimo de Estado enxuto. Um Estado
Funcional gigantesco é um pesadelo pra seus governados.
Ainda de um ponto de vista histórico, o mais sufocante
Estado socialista que já existiu foi o da Alemanha Oriental, que combinou o
autoritarismo comunista com a eficiência alemã. O resultado foi uma economia
asfixiada, paupérrima e sem o alívio que o mercado negro dava à população de
outros países socialistas, como a própria União Soviética.
Outra falácia está na ideia que somente o Estado pode suprir
bens e serviços cujos benefícios sociais superam os benefícios privados.
Normalmente o termo “social” pode ser facilmente substituído pelo termo
“governamental” sem maiores problemas. Qualquer benefício que seja
verdadeiramente social, e não apenas governamental, tem reflexo imediato nos
indivíduos que compõem a sociedade. Um argumento na linha apresentada apenas
justifica um aumento dos benefícios governamentais e dos interesses dos grupos
políticos que desfrutam dele.
Esse foi, decididamente, um péssimo fechamento para a
introdução do documento, pois demonstra que, ideologicamente, o Governo PMDB
não é comprometido com a liberdade econômica, e sim com o pragmatismo de não
ver a galinha dos ovos de ouro que sustenta o Estado morrer.
“A questão fiscal”
Esse é o melhor momento do documento do PMDB. Uma análise da
questão fiscal mostra que os gastos públicos estão descontrolados, gerando
inflação, aumento da dívida, quebra da poupança e redução de investimentos,
apontando que um ajuste fiscal será necessário e cobrará sacrifício da
sociedade, preferencialmente sem aumento de impostos. A inflexibilidade
orçamentária em virtude das leis também é uma boa crítica.
“Retorno a um orçamento verdadeiro”
Aqui o plano Temer começa a delinear soluções, pois até o
momento havia se preocupado apenas com críticas.
E o primeiro passo é no orçamento. O PMDB critica sabiamente
o orçamento extremamente rígido por meio de vinculações constitucionais. Ao
mesmo tempo, critica a bagunça no contingenciamento de recursos por parte do
Poder Executivo, o que demonstra falta de confiança no Poder Legislativo e o
avanço de um poder sobre outro. Medidas que realmente devem ser feitas.
O orçamento deve ser desvinculado, para que a proposta do
Executivo para o Legislativo seja mais eficiente e reflita as reais
necessidades do Governo, e o orçamento aprovado deve ser impositivo, ou seja,
uma vez o Legislativo tendo aprovado, não cabe ao Executivo contingenciar despesas,
fazendo da execução orçamentária moeda de troca política.
Outras ideias são: o orçamento com base zero, que significa
que todo ano os programas sociais devem ser reavaliados, sem obrigatoriedade de
continuação; aumento da rigidez no limite orçamentário, impedindo a expansão
dos gastos por conveniência; e a ceriação de uma Autoridade Orçamentária
indicada pelo Legislativo e Executivo, para acompanhar com maior eficiência a
execução dos gastos públicos.
Todas são ótimas ideias.
Continuando
Previdência e Demografia”
O plano de Temer critica a previdência social, ao afirmar
que cada vez mais a população está ficando mais idosa com menos crianças,
tornando o sistema insustentável. Fala no déficit anual de 83 bilhões que tende
a aumentar, e que o Brasil já gasta percentualmente, em relação ao PIB, o dobro
do que gastam EUA, Japão e China.
Como solução, traz um aumento da idade mínima de
aposentadoria, fim da indexação da base da aposentadoria ao salário mínimo e
fim do reajuste geral ao aumento do PIB.
A proposta previdenciária do PMDB, embora mais realista que
o sistema atual, não vai na ferida do problema, que é o sistema previdenciário
brasileiro ser de repartição, ao invés de capitalização.
O regime de repartição, adotado pelo INSS, tende a ser
insolvente. Funciona como um pacto de gerações: a geração ativa banca as
aposentadorias dos inativos, na expectativa de ser bancada, quando envelhecer,
pelas novas gerações. Esse regime acaba com a poupança nacional, pois há um
consumo contínuo de recursos, faz da população idosa um fardo para os jovens e,
no longo prazo, em países com aumento da expectativa de vida, gera a quebra do
sistema em virtude de excesso de beneficiários para poucos contribuintes. E
esse círculo vicioso não tem fim, pois quanto mais velha a população fica, mais
o governo precisará aumentar a fórmula para a aposentadoria. É exatamente o que
o PMDB propõe fazer.
Já o regime de capitalização, utilizado no Chile e
marginalmente no Brasil, através de contratos de previdência privada, é o único
com absoluta garantia de solvência. Ele funciona como uma poupança forçada,
cujos rendimentos são acumulados ao longo da vida de trabalho do segurado para,
no futuro, serem utilizados no pagamento da aposentadoria. Esse sistema também
traz externalidades positivas, como o aumento da poupança nacional, gerando
aumento dos investimentos e da produtividade nacional, e queda na taxa de
juros. Esse é o modelo proposto pelos liberais.
Ou se muda o regime, ou daqui a pouco outro grupo político
precisará fazer novo ajuste na repartição, aumentando cada vez mais a idade
mínima de aposentadoria, reduzindo pensões e aposentadorias, enquanto cria cada
vez mais rombos nas contas públicas.
“Juros e Dívida Pública”
Aqui o programa de Temer toma feições radicalmente liberais,
por incrível que pareça. De maneira bastante madura, o texto explica que a taxa
de juros no Brasil é muito superior a dos demais países desenvolvidos e em
desenvolvimento em virtude do caos fiscal e da desenfreada expansão monetária,
causando taxas de poupança ridiculamente baixas que obriga o Governo a captar
recursos com elevado custo financeiro.
O programa fala ainda que derrubar unilateralmente essa taxa
de juros sem prévia reforma fiscal e monetária, apenas agravaria o problema,
destruindo as contas públicas e a moeda nacional.Uma salva de palmas dos liberais a esse raciocínio.
Como solução, reforma fiscal com metas de curto, médio e
longo prazo, com alto percentual de superávit primário. Não podemos esperar que
Michel Temer seja um Campos Salles, que pegou um país quebrado e reformou a
gestão fiscal de forma a produzir superávits nominais em três anos, mas já é
alguma coisa em um cenário de terra arrasada.
“Uma agenda para o desenvolvimento”
O documento termina com várias propostas para o
desenvolvimento do Brasil. Serão analisadas uma a uma:
a) construir uma trajetória de equilíbrio fiscal duradouro,
com superávit operacional e a redução progressiva do endividamento público;
Embora sem dizer exatamente como fazer, é uma meta louvável.
b) estabelecer um limite para as despesas de custeio
inferior ao crescimento do PIB, através de lei, após serem eliminadas as
vinculações e as indexações que engessam o orçamento;
Excelentes propostas, de alto comprometimento com a
responsabilidade fiscal, cuja lei atual é bastante fraca, conforme demonstrado
sucessivamente pelo Governo Dilma, que a deturpou e rasgou a bel prazer.
c) alcançar, em no máximo 3 anos, a estabilidade da relação
Dívida/PIB e uma taxa de inflação no centro da meta de 4,5%, que juntos
propiciarão juros básicos reais em linha com uma média internacional de países
relevantes – desenvolvidos e emergentes – e taxa de câmbio real que reflita
nossas condições relativas de competitividade;
Não gosto de qualquer nível de inflação, pois inflação
constitui meio impróprio de tributação através de expansão monetária com
criação de dinheiro do nada. Também não gosto de controle cambial, como sugere
levemente essa alínea, que como um todo deve ser vista com muitas reservas.
d) executar uma política de desenvolvimento centrada na
iniciativa privada, por meio de transferências de ativos que se fizerem
necessárias, concessões amplas em todas as áreas de logística e infraestrutura,
parcerias para complementar a oferta de serviços públicos e retorno a regime
anterior de concessões na área de petróleo, dando-se a Petrobras o direito de
preferência?
Excelente, à exceção do último ponto. O PMDB é um fã da
Petrobras, de onde tira o grosso do seu financiamento, como bem se vê via
Operação Lava Jato. É pedir muito do partido que se livre de um fetiche tão
lucrativo quanto a petrossauro é.
e) realizar a inserção plena da economia brasileira no
comércio internacional, com maior abertura comercial e busca de acordos
regionais de comércio em todas as áreas econômicas relevantes – Estados Unidos,
União Europeia e Ásia – com ou sem a companhia do Mercosul, embora
preferencialmente com eles. Apoio real para que o nosso setor produtivo
integre-se às cadeias globais de valor, auxiliando no aumento da produtividade
e alinhando nossas normas aos novos padrões normativos que estão se formando no
comércio internacional;
Espetacular posicionamento. O Mercosul hoje é um entrave à
livre negociação do Brasil com o exterior. Um texto na medida certa do ponto de
vista político, pois avisa que quer os parceiros locais, desde que se alinhem à
nova política livre-mercadista. Eu, particularmente, preferiria um rompimento
reto e definitivo com o Mercosul, criando acordos bilaterais com os países do
bloco que assim desejassem, mas o que temos nesse programa já é um bom caminho.
f) promover legislação para garantir o melhor nível possível
de governança corporativa às empresas estatais e às agências reguladoras, com
regras estritas para o recrutamento de seus dirigentes e para a sua
responsabilização perante a sociedade e as instituições;
Regras de accountability e compliance são sempre importantes
de serem implementadas no setor público. A melhor abordagem no que tange às
empresas estatais, no entanto, seria a privatização com abertura de mercado, e
o ideal seria a abolição das agências reguladoras.
g) reformar amplamente o processo de elaboração e execução
do orçamento público, tornando o gasto mais transparente, responsável e
eficiente;
Outro caso de excelentes metas, mas sem os mecanismos de
obtenção desses resultados.
h) estabelecer uma agenda de transparência e de avaliação de
políticas públicas, que permita a identificação dos beneficiários, e a análise
dos impactos dos programas. O Brasil gasta muito com políticas públicas com
resultados piores do que a maioria dos países relevantes;
Outro caso de transparência e accountability para
modernização do setor público.
i) na área trabalhista, permitir que as convenções coletivas
prevaleçam sobre as normas legais, salvo quanto aos direitos básicos;
Protocolo de intenções de flexibilização das leis trabalhistas,
o que é muito necessário para a redução do custo-Brasil e combate ao
desemprego, mas sem convicção.
j) na área tributária, realizar um vasto esforço de
simplificação, reduzindo o número de impostos e unificando a legislação do
ICMS, com a transferência da cobrança para o Estado de destino; desoneração das
exportações e dos investimentos; reduzir as exceções para que grupos parecidos
paguem impostos parecidos;
Ótimos projetos de redução e isonomia tributária. A
unificação da legislação do ICMS corrigirá uma distorção histórica contra o
Estado do Rio de Janeiro. Só temos cautela quanto à uniformização da alíquota
do ICMS, pois isso impediria a guerra fiscal que traz benefícios para os
Estados mais pobres, que passam a ter maior competitividade na atração de
indústrias, além de reduzir preços para o consumidor final dos produtos
beneficiados, em caso de regime de livre-mercado concorrencial.
k) promover a racionalização dos procedimentos burocráticos
e assegurar ampla segurança jurídica para a criação de empresas e para a
realização de investimentos, com ênfase nos licenciamentos ambientais que podem
ser efetivos sem ser necessariamente complexos e demorados;
Outros ótimos pontos abordados com simplicidade e
eficiência. Precisamos desburocratizar o país.
l) dar alta prioridade à pesquisa e o desenvolvimento
tecnológico que são a base da inovação.
Universidade é local de pesquisa científica, não de
proselitismo político de esquerda. Ótima proposta.
Concluindo…
Em suma, a agenda Temer não é a melhor agenda do mundo, mas
dentro do péssimo histórico brasileiro, se esse plano for seguido à risca, há
uma real chance do Brasil deixar de ser o país do futuro para virar o país do
presente.
Mas, como diria o grande Garrincha, “só falta combinar com
os russos”.
A Petrobras não quebrou apenas
por corrupção. A causa maior é a péssima administração, consequência daqueles
“princípios” estatistas
Os governos petistas sempre tiveram como meta fortalecer as
estatais como o melhor meio de combater as propostas de privatização, reais ou
imaginárias. Importante esta última ressalva porque, a rigor, privatizar a
Petrobras nunca entrou na pauta política brasileira.
Mas isso não importava. Defender as estatais, eis o discurso
básico do PT. O partido também procurou desmontar a tese implantada no governo
FHC, segundo a qual as companhias públicas deveriam ser administradas
profissionalmente, quase como se fossem privadas, por executivos e quadros
técnicos do setor.
Isso, dizia Lula, era neoliberalismo. Seria colocar as
estatais a serviço do mercado e dos interesses privados.
Vai daí, as estatais deveriam ser administradas pelos
quadros partidários, pelos companheiros, para que fossem encaminhadas na
direção correta.
Essa direção era: ampliar as atividades e o alcance das
estatais; objetivos políticos e sociais eram mais importantes que lucros ou
valor de mercado; comprar e contratar no mercado nacional, mesmo que a preços
mais caros.
Fizeram isso, com requintes de populismo, como o de entregar
a administração de recursos humanos da Petrobras a representantes dos
sindicatos de petroleiros.
Quebraram a estatal. Vamos falar francamente: a Petrobras só
não está em pedido de recuperação judicial porque é estatal. Todo mundo espera
que, em algum momento, o governo imprima dinheiro para capitalizar a empresa.
A companhia tem problemas em todos os lados, inclusive de
excesso de pessoal e de pessoal mais bem remunerado que no mercado. (Aliás, a
ideia era exatamente essa).
A Petrobras não quebrou apenas por corrupção. A causa maior
é a péssima administração, consequência daqueles “princípios” estatistas.
Por isso estamos falando do assunto. O estatismo tem sido
dominante entre nós. E ainda hoje, muita gente partilha daquelas ideias
implantadas pelo PT. Diz esse pessoal: a coisa saiu mal por causa da
incompetência dos governos Lula e Dilma, e não porque a tese seja errada.
Esse é o grande risco que corremos. O modelo populista está
errado, a doutrina estatista é origem do fracasso. Nem um gênio da gestão
empresarial conseguiria evitar o desastre da Petrobras nesse processo em que
foi lançada por Lula.
Vai daí que será preciso aproveitar a oportunidade para
fazer o contrário, em tudo. Citamos mais a Petrobras porque é o caso mais
notável. Imaginemos uma teoria conspirativa: um presidente neoliberal que
tivesse a ideia macabra de quebrar a Petrobras para poder fechá-la e, assim,
coloca-se uma equipe talhada para produzir o desastre.
Pois não teria conseguido fazer o que a gestão petista
aprontou.
Hoje, por exemplo, seria impossível privatizar a Petrobras —
a menos que se vendesse a preço de banana. E por falar nisso, a ação da
Petrobras não está mesmo valendo menos que um cacho de bananas?
Mas é possível — e absolutamente necessário — vender pedaços
da Petrobras e privatizar um monte de ativos. E o que sobrar deve, sim, ser
administrado por quadros do mercado, com regras de gestão privada.
O presidente da companhia também deveria ser procurado no
mercado, inclusive no mercado internacional. Qual o problema de se colocar um
executivo chinês ou norueguês tomando conta da Petrobras, conforme programas
aprovados pelos conselhos?
Isso vale para as demais estatais quebradas, como a
Eletrobras.
E mais um programa de privatização não envergonhada. Quando
percebeu que não tinha mais dinheiro nem competência para arrumar aeroportos,
estradas, portos etc., o governo petista resolveu concedê-los à iniciativa
privada. Mas como era feio privatizar, colocaram um monte de regras que
tornaram o negócio menos atraente e mais caro para os concessionários.
Por isso, isso andou mal.
Fazendo o contrário, aqui há uma hipótese de rápida retomada
de negócios. Muitas empresas médias, nacionais e estrangeiras, estão prontas
para tomar o negócio das empreiteiras apanhadas na Lava-Jato. O que não
funciona é privatizar e dizer que o concessionário não pode ganhar dinheiro ou
só pode ganhar quanto o governo autorizar.
Tudo isso vale também para os bancos públicos. Todo o
mercado desconfia que estão em situação pior do que no final dos anos 90,
quando o governo FHC precisou colocar um monte de dinheiro no BB e na Caixa.
A contrapartida foi a gestão profissional nesses bancos,
também desmontada pelos governos petistas. Quebraram de novo.
A tristeza disso é que os governos Lula/Dilma estragaram o
que estava pronto e funcionando. O que traz um certo ânimo é que sabemos o que
precisa fazer: é só repetir a combinação
privatização/profissionalização/equilíbrio das contas públicas.
O país já havia conseguido enterrar o populismo estatizante.
Ressuscitou. Agora é preciso corrigir o desastre e colocar esse populismo numa
cova bem profunda, em algum cemitério privado, claro.